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O Machado roubado

 «Lao-Tseu
conta que, um dia, um camponês perdeu o seu machado.
Procurou-o por todo o lado, em casa, mas em vão. 
Ao aperceber-se, entretanto, que um dos seus vizinhos passava desviando o olhar suspeitou, de imediato, que pudesse ter sido ele a roubar-lho.
O homem, de facto, tinha um comportamento suspeito e que levava a crer que tivesse sido o ladrão do machado. O seu rosto, o seu ar, a sua atitude, os seus gestos, as palavras que pronunciava, tudo nele indicava, sem lugar para dúvidas, que fosse ele o ladrão.
Instalada a dúvida, o camponês estava decidido a denunciá-lo, a acusá-lo publicamente e a leva-lo perante um juiz quando, de repente, reencontrou o seu machado, caído no meio dos arbustos, não longe dali.
Quando voltou a ver o seu vizinho, este não apresentava o menor indicio que sugerisse poder ser o ladrão do desaparecido machado.»

Contes philosophiques
Trad. e Adaptação
Maria M. Abreu

... O perigo das presunções baseadas em meros equívocos, sem o suporte de provas concretas.

Ervas Daninhas

«Um velho monge dirigia-se, lentamente, para a aldeia, apreciando o ar doce e perfumado da manhã. Assim que chegou às primeiras casas apercebeu-se de um rapaz que estava sentado e só, enquanto outras crianças brincavam em conjunto. Parecia ter um olhar vazio…
O monge aproximou-se e, sem dizer nada, sentou-se ao seu lado.
O rapaz virou a cabeça e observou o monge, em silêncio.
Imitando a criança, o velho monge poisou as suas mãos sobre os joelhos, com o olhar fixo em frente.
De vez em quando olhava de lado, sorrateiramente…
Ao fim de algum tempo a situação tornou-se cómica. Face às suas expressões faciais a criança sorriu, o monge também e desataram ambos a rir.
Era como se uma torneira se tivesse aberto …
- O meu pai diz que eu não valho nada, não sei ler e falho tudo o que me pede para fazer.
O velho monge sorriu …
- Enganas-te, fizeste-me rir, deste-me alegria e estou-te grato por isso.
A criança fez uma expressão de dúvida.
Então o monge apontou para as plantas que cresciam ao longo do caminho e através das fissuras das paredes das casas e perguntou:
- Sabes o que isto é?
- Sim, sei, são ervas daninhas. O meu pai pediu-me que as arrancasse e nem isso fui capaz de fazer…
- Provavelmente porque tu sabes …
- Sei o quê?..., perguntou o rapaz, perplexo
- Que não são ervas daninhas… Elas escondem-se, passam despercebidas, toda a gente as arranca, mas elas são especiais …
- O que têm elas de especial?...
- Vês aquela que cresce na fissura da parede?
- Sim, vejo…
- Pois bem, as suas raízes secas e reduzidas a pó servem para combater a febre; e a outra, a que cresce no meio do caminho, suaviza a garganta e acalma a tosse…
O rapaz escutava, abismado!...
- Aquela, ali, acalma as dores de barriga e as cólicas dos bébés …
O monge continuou a mostrar-lhe uma quantidade enorme de “ervas daninhas” que cresciam à volta deles e, segundo ele, todas tinham uma função.
- Todas estas plantas a que, com frequência, chamamos “ervas daninhas” contêm um tesouro em si próprias. Aquele que conhecer o seu segredo será capaz de curar ou aliviar muitos problemas…
Todas têm uma grande riqueza dentro de si; não podemos olhar para elas só pela aparência, mas pelo que têm e são na sua essência…
- É verdade que podem curar?...
- Sim, e eu penso que, no fundo, tu sabias e que foi essa a razão pela qual as não arrancaste…
Se quiseres ir para o mosteiro, poderás aprender a conhecê-las …
O rapaz aceitou e o pai ficou satisfeito, pois seria menos uma boca a sustentar.
Foi crescendo, aprendendo e tornou-se um jovem robusto e com inesgotáveis conhecimentos sobre plantas.
...Um velho monge dirigia-se, lentamente, para a aldeia, apreciando o ar doce e perfumado da manhã.
Assim que chegou às primeiras casas, dirigiu-se para uma especial.
Era uma loja onde se vendiam plantas para tratamento de doenças e que tinha uma tabuleta:
“Aqui não há ervas daninhas”.
De dentro saiu um homem jovem e sorridente e, com ele, uma miscelânea de diferentes aromas.
Olhando um para o outro sentaram-se depois, lado a lado, sem dizer palavra.
O monge imitou o jovem e colocou as mãos sobre os joelhos, com o olhar fixo à sua frente.
De vez em quando, olhava de lado, sorrateiramente…
De repente o jovem e o monge desataram a rir à gargalhada…
O essencial vê-se com o coração.
“Aqui não existem ervas daninhas”

Ilustr. Janet Duncan, "Through the weeds"
Contes philosophiques
Trad. e adap.: Maria M. Abreu

A Serpente e os Aldeões, conto indiano

«Perto de uma pequena aldeia da India vivia uma enorme serpente que aterrorizava os habitantes, atacando de morte aqueles que se aproximavam.
Exasperados, os aldeões juntaram-se e foram procurar um homem sábio para se queixarem da sua maldade.
Depois de os ouvir, o sábio foi ter com a serpente. Falou com ela durante muito tempo criticando o seu mau comportamento… "Que mal lhe tinham feito os aldeões?" … "Qual a causa de tantas mortes e violência gratuitas?"...
Ele foi de tal maneira convincente que a serpente ficou perturbada. Jurou emendar-se e manteve a sua palavra.
A partir desse dia não foi mais a mesma. Ela, aquele réptil outrora aterrador, transformou-se numa espécie de longo verme, esguio e flácido. Perdeu toda a sua força não ousando, mesmo, engolir a mais pequena das lesmas.
Os aldeões, que tinham a memória curta, vieram troçar da sua fraqueza. "De que lhe valia ter presas venenosas se não fazia uso delas"!...
Quanto às crianças, de cada vez que passavam por ela, atiravam-lhe pedras ou davam-lhe pontapés.
Ao fim de vários meses nesta situação, a serpente estava cansada de todos os golpes sofridos. 
Arrastou-se com dificuldade até casa do sábio e, por seu turno, expôs-lhe os seus problemas.
- Fiz tudo o que me pediste e tenho a impressão de já não ser eu mesma. Os aldeões já não me temem e perderam todo o respeito que tinham por mim. Desprezam-me, batem-me e tenho o coração a sangrar. O que me aconselhas?
- É muito simples o que tenho para te dizer, respondeu-lhe o sábio.
Proibi-te de atacares os aldeões de morte, quando não há razão para tal. Mas … alguma vez te proibi de sibilar?...»

Ilustr.Google
Graphomage
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

A Ponte de Praga

  «Era uma vez, na cidade de Cracóvia, um velho compreensivo e solidário que se chamava Izy.
Durante várias noites Izy sonhou que viajava até Praga e que chegava até uma ponte, sobre um rio.
Sonhou também que, de um lado do rio e debaixo da ponte se encontrava uma árvore de grande porte. E sonhou que cavava um buraco ao lado da árvore, e de lá saía um tesouro que lhe traria bem-estar e tranquilidade para o resto da sua vida.
Ao principio, não lhe deu importância.
Mas, como o sonho se repetiu durante várias semanas, interpretou o facto como sendo uma mensagem e decidiu que não podia fazer "ouvidos de mercador" a esta informação, que lhe chegava de Deus, ou do além, enquanto dormia.
Assim, fiel à sua intuição, carregou a sua mula para uma grande viagem e partiu em direcção a Praga.
Depois de seis dias de marcha, o velhinho chegou a Praga e dedicou-se à procura da ponte sobre o rio, fora da cidade.
Como não havia muitos rios, nem muitas pontes encontrou, rapidamente, o lugar que procurava. Era em tudo semelhante ao seu sonho: o rio, a ponte e, numa das margens do rio, a árvore sob a qual deveria cavar.
Havia, apenas, um detalhe que não tinha aparecido no seu sonho: a ponte estava guardada, noite e dia, por um soldado da guarda imperial.
Izy não ousou cavar enquanto o soldado lá estava e, por isso, decidiu acampar perto da ponte e esperar.
Na segunda noite, o soldado começou a desconfiar deste homem que acampava perto da ponte, e aproximou-se para o interrogar.
O velho Izy não viu razões para lhe mentir.
Ele tinha vindo de uma cidade tão longínqua porque tinha sonhado que, em Praga, havia um tesouro enterrado. 
O soldado desatou a rir, à gargalhada.
- "O senhor fez uma grande viagem ao disparate - disse ele - Há três anos que sonho todas as noites que, na cidade de Cracóvia, há um tesouro enterrado sob a cozinha de um velho louco chamado Izy. Ah,ah,ah!... O senhor acha que eu deveria ir a Cracóvia procurar esse Izy e cavar sob a sua cozinha?".
Izy agradeceu amavelmente ao soldado e voltou para casa.
Ao chegar, cavou um buraco na sua cozinha e encontrou o tesouro que sempre lá tinha estado enterrado.»

Este conto chama à atenção para o facto de que, com alguma frequência, a felicidade a que aspiramos está bem perto de nós; precisamos, no entanto, de algo que nos abra os olhos, de uma espécie de viagem iniciática, para que nos possamos aperceber e, eventualmente, reconhecer.

CONTES de SAGESSE du monde entier
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Estratégia de Mestre

"Um jovem monge debatia-se com um sério problema:
era preciso reparar o telhado do mosteiro mas não havia meios para o fazer, uma vez que a riqueza deste templo se resumia ao amor e compreensão que aí reinavam.
Sem saber o que fazer sentou-se e pensou no velho monge que tinha sido seu mestre; ele, sim, saberia como resolver o problema!...
Enquanto permanecia em silêncio surgiu-lhe, de repente, uma ideia. Pegou num carrinho de mão e partiu em direcção à aldeia.
Antes de partir informou os outros monges:
- Vou à aldeia procurar uma solução para reparar o telhado.
- Como? Os aldeões não são ricos, não poderão dar-te dinheiro …
O jovem monge sorriu e partiu. 
Quando chegou à entrada da aldeia dirigiu-se à primeira casa.
- Bom dia, o meu mestre disse-me que aqui encontraria sempre ajuda …
O aldeão inclinou-se, pegou na taça do monge e encheu-a de arroz. Este, por sua vez, pegou na taça e verteu-a para dentro do carrinho-de-mão.
E assim prosseguiu, indo de casa em casa. 
A bondade do seu velho mestre estava na memória de todas estas pessoas e cada uma delas contribuiu com uma taça de arroz.
Em seguida foi para uma outra aldeia e fez o mesmo.
A estratégia foi tão bem sucedida que, por fim, o carrinho ficou cheio de arroz.
Depois foi, ainda, a uma outra aldeia próxima, vendeu uma parte do arroz e ofereceu o que sobrou aos pobres sem abrigo.
E assim, com o dinheiro que ganhou na venda do arroz pôde mandar reparar o telhado do mosteiro.
Mais tarde sentou-se em frente ao mosteiro a sorrir, sentindo a presença do seu velho mestre."

Contes Philosophiques
Trad/Adaptação: Maria M. Abreu

Salvar é a minha natureza

« Dois monges estavam a lavar as suas tigelas à beira de um rio quando repararam que um escorpião se estava a afogar.
Um dos monges, imediatamente, pegou nele e colocou-o na margem.
Durante este processo foi picado.
Continuou a lavar a sua tigela e, de novo, o escorpião caíu ao rio.
O monge voltou a salvar o escorpião e foi, novamente, picado.
O outro monge perguntou-lhe:
- Amigo, porque continuas a salvar o escorpião quando sabes que a sua natureza é picar?
- Porque - respondeu o monge - salvar, é a minha natureza.»

Trad. e adaptação: Maria M. Abreu 

Os Três Crivos

« Um dia, ao sair do alpendre onde tinha estado a conversar com um grupo de jovens, um velho sábio, a quem chamaremos “Sócrates” em homenagem ao bem conhecido filósofo, encontrou-se frente a um homem que conhecia e que lhe disse, em tom confidencial:
- Escuta, Sócrates, entre os teus auditores há um jovem pouco recomendável, indigno da tua confiança. Quando te fizer a descrição dos seus actos, penso que o banirás do teu grupo.
- Estou pronto a escutar-te – respondeu Sócrates – e a tomar as medidas que forem necessárias. Mas primeiro deixa-me perceber melhor o que estás prestes a contar-me.
Fizeste passar as tuas palavras através dos três crivos?
- Os três crivos, o que é isso? - perguntou o homem
- O primeiro crivo, é o da Verdade.
Tens a certeza de que o que vais contar-me é verdadeiro e tem fundamento? Verificaste ou observaste com os teus próprios olhos?
- Para dizer a verdade – respondeu o homem, depois de um momento de hesitação – ouvi contar, mas não confirmei.
- A prova do primeiro crivo não foi bem sucedida – disse Sócrates – passemos ao segundo.
O crivo da Bondade.
Vais contar-me algo de bom ou positivo sobre esse homem?
- Pelo contrário – respondeu – ia falar-te mal dele.
- Sendo assim, as tuas palavras também não passam a prova do segundo crivo – diz Sócrates – vejamos o último, o crivo da Utilidade.
Este homem será beneficiado pelo facto de eu o excluir do círculo dos meus interlocutores? 
Não será mais útil que ele fique comigo e beneficie dos meus ensinamentos, a fim de melhorar?
- Creio que tens razão – respondeu o homem – Se bem compreendi, cada vez que eu tiver vontade de contar algo sobre alguém, devo fazer passar as minhas palavras através dos três crivos?
- Compreendeste perfeitamente – diz Sócrates
- Basta não passar em um só dos três crivos para deveres renunciar. Será melhor.»

metafora.ch
Trad. e adaptação: Maria M. Abreu

O Cedro, conto tradicional Cherokee

« Há muito tempo, quando o povo Cherokee apareceu na Terra, começou a pensar que a vida seria muito melhor se nunca houvesse noite.
Imploraram então, ao Criador, que fizesse com que fosse sempre dia - dias intermináveis, que se sucederiam uns aos outros, sem lugar para as noites.
O Criador ouviu as sua vozes, prestou-lhes toda a atenção e acedeu aos seus desejos.
Muito em breve, a floresta tornou-se cerrada e densa. Nos campos, as pessoas trabalhavam arduamente, durante longas horas. O clima aqueceu, os dias eram cada vez mais quentes, e assim continuaram dias após dias.
As pessoas deixaram de ter sono e tornaram-se mal-humoradas.
Apercebendo-se do seu erro, o povo implorou ao Criador:
- "Cometemos um erro ao pedir para que fosse sempre dia. Pensamos, agora, que só deveremos ter noites. Queremos que seja sempre noite."
Apesar de todas as coisas terem sido criadas de forma dual: dia e noite, vida e morte, bem e mal, tempos de abundância e tempos de fome, o Criador amava o Povo e decidiu fazer o que pediam. Acabaram-se os dias e a noite caiu sobre a Terra.
Em breve as colheitas pararam de crescer e o tempo ficou muito frio.
O Povo começou a passar muito do seu tempo a reunir lenha para fazer as suas fogueiras.
Não conseguiam ver para caçar e, cedo, ficaram cheios de frio, fracos e famintos.
Muitos morreram de fome.
Os que sobreviveram juntaram-se, de novo, para implorar ao Criador: 
- "Ajuda-nos, oh Criador" gritaram "Cometemos um erro terrível! Desde o princípio que fizeste o dia e a noite, de forma perfeita, e como deveria ter sido sempre. 
Pedimos-te que nos perdoes e nos devolvas o dia e a noite como era, no início."
Uma vez mais o Criador ouviu o pedido do Povo.
O dia e a noite regressaram, tal como o Povo havia pedido e como tinha acontecido, inicialmente.
Cada dia estava dividido entre a luz e a escuridão. 
O clima tornou-se agradável e as colheitas cresceram de novo. 
A caça abundava e o Povo tinha muito que comer, tornando-se saudável. 
Lidavam entre si com compaixão e respeito. 
Era bom estarem vivos.
O Povo agradeceu, então, ao Criador a sua nova vida e a quantidade de alimentos que tinham para comer. 
O Criador aceitou a gratidão do Povo e ficou feliz de os ver sorrir de novo.
Contudo, durante o tempo das longas e intermináveis noites, muitas pessoas morreram.
O Criador colocou, então, os seus espíritos numa árvore recentemente criada: o Cedro.
Os Cherokee acreditam que a madeira de Cedro possui poderosos espíritos protetores. 
Muitos trazem consigo pequenos pedaços de madeira de cedro nos seus pequenos sacos de magia, usados à volta do pescoço.
Também é colocada na entrada das casas, enquanto escudo protetor, para prevenir a entrada de espíritos malignos.
O tradicional tambor é feito com madeira de cedro.»

Google Ilustr.
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodja, A razão do mais forte

« Um dia, Nasreddin Hodja precisou de atravessar o mar de Mármara.
Apanhou um barco mas, mesmo a meio da travessia, levantou-se uma grande tempestade e o barco começou a afundar-se.
Todos, passageiros e membros da tripulação,  começaram a tirar a água da embarcação, na tentativa de manter o barco à tona.
Porém, entre o grupo encontrava-se um homem que, para consternação geral, tirava a água do mar para dentro do barco:
era o inigualável Nasreddin Hodja.
O capitão precipitou-se contra ele injuriando-o e acusando-o de os querer matar a todos mas, Nasreddin, não perdia a calma.
Explicou então ao capitão que estava a seguir, apenas, o conselho que a sua mãe, insistentemente, lhe repetia:
-“Colocar-se sempre do lado do mais forte”…»

Ilustr. Google
Tradução e adaptação: 
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodjah, O gramático

« O Mullah Nasreddin era um barqueiro e fazia o transporte de pessoas de uma margem do rio para a outra.
Um dia, enquanto transportava um conhecido gramático, este perguntou-lhe:
- O senhor sabe gramática?
- Não, de modo nenhum, respondeu o Mullah, sem hesitação.
- Então permita-me que lhe diga que perdeu metade da sua vida, replicou desdenhosamente o intelectual.
Um pouco mais tarde surgiu uma rajada de vento e o barco estava prestes a ser engolido pelas ondas. 
Pouco antes de naufragar o Mullah pergunta ao seu passageiro:
- O senhor sabe nadar?
- Não, respondeu este último, completamente aterrado.
- Pois bem, permita-me que lhe diga que pode considerar toda a sua vida como perdida! »

Contes philosophiques
Ilustr. Google
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodja, O pão nosso de cada dia

«Um dia chegaram uns polícias com a ordem de prender Nasreddin Hodja.
O sultão queria confrontá-lo com os mais eminentes sábios do país, que o acusavam de ser um herege.
Em sua defesa, Hodja pediu que fosse distribuído pelos sábios algo com que pudessem escrever.
Convidou-os, então, a responderem, por escrito, a uma única questão: “O que é um pão?”
Passado algum tempo leu as respostas à assembleia:
. para o jurista, o pão era um alimento;
.  para o físico, era um composto entre farinha e água;
.  para o teólogo, um dom dos céus;
. para o geógrafo, era uma pasta cozida;
. para o filósofo, dependia do que se entendesse por “pão”;
. para o médico, era uma substância nutritiva;
E, enfim, para o historiador, ninguém sabia o que era.
Virando-se, depois, para o sultão, disse-lhe:
-“Senhor, eles são incapazes de chegar a um acordo para definir algo de que se alimentam todos os dias.
Como poderiam eles concluir, de comum acordo, que sou um herege?”»

Ilustr. Google
Trad. e adaptação:
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodja, Insha'Allah

«Djeha-Hodja Nasreddin estava determinado a ser mais empreendedor.
Um dia, disse à sua mulher que ia arar o seu terreno junto ao rio e que estaria de regresso à hora de jantar.
Ela insistiu para que ele dissesse “Insha'Allah” (se Deus quiser).
E ele respondeu-lhe que era essa a sua intenção, quer Deus quisesse ou não.
Horrorizada, a sua mulher levantou os olhos ao céu e, tomando Allah como testemunha, pediu-lhe que perdoasse este perjúrio.
Djeha-Hodja Nasreddin pegou na sua charrua, atrelou os bois e, montando o seu burro, partiu para o campo.
Entretanto, depois de uma chuva repentina e breve, o rio transbordou.
O seu burro foi arrastado pela corrente, ficou preso e um dos bois partiu uma perna.
Djeha-Hodja Nasreddin não teve outra alternativa senão substituí-los.
A noite chegou, entretanto, e ele só tinha conseguido acabar metade do terreno.
Extenuado, ainda teve que esperar na obscuridade, durante muito tempo, que o nível da água baixasse de forma a poder fazer atravessia.
Chegou, finalmente, a casa por volta da meia-noite, encharcado e bem mais sábio…
Bateu à porta.
-“Quem é?”, perguntou a mulher.
-“Penso que sou eu, se Deus quiser…”»

Ilustr. Google
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodja, A túnica de Nasreddin

«Uma tarde em que Nasreddin regressava do seu trabalho nos campos, com a roupa suja e lamacenta, ouviu cantar e rir e apercebeu-se de que havia uma festa nas redondezas.
Ora, entre os seus, quando há uma festa toda a gente pode participar.
Então, Nasreddin empurrou a porta da casa a sorrir de felicidade pois, da cozinha, emanava um delicioso aroma a couscous.
Mas não conseguiu ir longe.
Estava de tal maneira mal vestido que foi apanhado sem qualquer cerimónia.
Irritado, correu até sua casa, vestiu a sua mais bela túnica e regressou à festa.
Desta vez, foi bem acolhido.
Instalaram-no confortavelmente e deram-lhe de comer e de beber.
Nasreddin pegou no couscous, no molho e no vinho e começou a derramá-los sobre a sua túnica, ao mesmo tempo que dizia:
- Come, túnica. Bebe, túnica.
Um homem que se encontrava sentado ao seu lado perguntou-lhe:
- Mas, o que estás a fazer? Estás louco?
- Não, amigo, respondeu-lhe Nasreddin.
- Na verdade, não fui eu o convidado, mas sim a minha túnica.» 😄

Ilustr.Google
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Conto Zen, ensinamento de Buda

« Um mestre zen chinês chamado Roshi - que significa “ninho de ave”- era assim chamado porque meditava, frequentemente, em cima de uma árvore.
Um dia, o governador da região decidiu fazer-lhe uma visita, para o conhecer, e ele encontrava-se precisamente em cima da árvore.
Assim que o governador o encontrou, disse-lhe:
- Mas que lugar perigoso o senhor escolheu para meditar.
O Mestre Roshi respondeu-lhe, então:
- O lugar em que está é bem mais perigoso que o meu.
O governador retorquiu:
- Sou o governador da região, não vejo onde está o perigo.
E o mestre respondeu:
- Então é porque o senhor não se conhece bem.
Quando arde o fogo das paixões e a mente se agita, é muito grande o perigo.
O governador perguntou:
- Qual é, então, o ensinamento budista?
Roshi começou a recitar um sutra de Dhammapada:
"Não cometas más acções. Pratica somente o bem. Mantém o coração puro.
Este é o ensinamento de Buda."
Depois de ouvir a mensagem o governador, pouco impressionado, respondeu:
- Qualquer criança de três anos sabe isso.
O mestre retorquiu, finalmente:
- Talvez assim seja, mas nem um homem de oitenta anos é capaz de o cumprir.»

Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Nas tuas mãos, conto budista

« Um rapaz apanhou um pequeno pássaro e segurou-o atrás das costas. Depois perguntou ao seu Mestre:
- Mestre, a ave que eu tenho nas minhas mãos, está viva ou morta?
O rapaz estava convencido de que esta era uma grande oportunidade de pregar uma partida ao velho Mestre.
Se este respondesse que estava morta, libertá-la-ia e deixá-la-ia voar.
Se o velho Mestre respondesse que estava viva, ele simplesmente lhe torceria o pescoço.
O Mestre respondeu, então:
- A resposta está nas tuas mãos!»

Ilustr. Lou Dahua, "Birds and bamboo"

Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Será que Deus existe?, conto budista

" Uma manhã, Buda estava em companhia dos seus discípulos quando um homem se aproximou e lhe perguntou:
- Será que Deus existe?
- Claro que sim, respondeu Buda.
Depois do pequeno-almoço, aproximou-se um outro homem.
- Deus existirá?... perguntou, também.
- Não, não existe, respondeu Buda.
Ao fim da tarde, um terceiro homem veio colocar a mesma questão:
- Achas que Deus existe?
- A ti compete decidir, respondeu Buda.
Depois do homem ter partido, um dos discípulos exclamou, revoltado:
- Mestre, isso é absurdo! Porque dás respostas tão diferentes para a mesma questão?
- Porque são pessoas diferentes, cada uma chegará a Deus através da sua própria caminhada.
O primeiro, confiará em mim. 
O segundo fará tudo o que estiver ao seu alcance para provar que estou errado.
O terceiro só irá acreditar no que ele próprio escolher."

Jacky Bourgogne

Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Dominando a cólera, conto budista

"Um discípulo da filosofia Zen disse, um dia, ao seu Mestre:
- Mestre, eu tenho um temperamento incontrolável. Por favor, ajude-me a libertar-me.
- Tu tens algo muito estranho! - disse o Mestre - Mostra-me o que é.
- Não posso mostrar-lhe agora - respondeu o discípulo.
- E porque não? - perguntou o Mestre
- Porque surge repentinamente...
- Então não pode pertencer à tua própria natureza - disse o Mestre - Se pertencesse, serias capaz de o mostrar em qualquer altura.
Porque é que permites que algo que te não pertence perturbe a tua vida?...
A partir desse momento, sempre que o discípulo sentia estar prestes a zangar-se, lembrava-se das palavras do seu Mestre e procurava controlar a sua cólera.

Com o tempo, ele desenvolveu um temperamento calmo e sereno."

Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Ao sabor da corrente

«Uma história Taoísta fala-nos de um velho homem que acidentalmente caiu ao rio, numa zona de rápidos que corriam em direcção a uma elevada e perigosa catarata.
Quem estava a assistir receou pela sua vida.
Miraculosamente ele apareceu são e salvo, ao sabor da corrente, no fundo da catarata.
Espantadas, as pessoas perguntaram-lhe como tinha conseguido sobreviver.
"Eu acomodei-me à água, e não a água a mim.
Sem pensar, deixei-me ser moldado por ela.
Mergulhando no redemoinho, voltei a sair com ele. Foi assim que sobrevivi!."»

Maria M. Abreu
Tradução e Adaptação