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Mahatma Gandhi, fome e religião

Num mundo tão saturado pela violência e na sequência das guerras e conflitos em curso lembrei-me de um dos meus ídolos da juventude, Mahatma Gandhi, pelo seu carácter, pelo papel que desempenhou no processo de descolonização da India, pela sua dimensão ética e, sobretudo, pela inovadora estratégia que imprimiu ao seu combate político: a "não-violência", a de resistir e apelar à resistência sem recurso à violência, ao conflito armado.
Atendendo à  sua elevadíssima dimensão espiritual e ao seu profundo humanismo, defendia a tese de que a pobreza extrema e a fome eram duas das piores formas de violência resultantes do sistema colonial vigente, ao tempo, que urgia fossem combatidas de raiz, e apelava à promoção da auto-suficiência e ao desenvolvimento das comunidades locais enquanto vias de empoderamento das populações.

«There are people in the world so hungry, that God cannot appear to them except in the form of bread»
«Há pessoas no mundo com tanta fome que Deus só lhes pode aparecer sob a forma de pão.»
Mahatma Gandhi (1869-1948)
Ilustr. Google

Abordando o Primeiro-Ministro António Costa (2022)

 
A olhar para a lareira que crepita à minha frente e a pensar, a temer, a questionar... aconteça o que acontecer está feito, e não há mais lugar para hesitações ...
Aproveitei a oportunidade que nos foi dada, a todos os cidadãos deste país e votei antecipadamente ... bastante convencida, ao tempo, apesar de não estar habituada a apostar no que desconheço ... 
Gosto de jogar pelo que penso seja seguro, certo e justo e há já muitos anos que tenho votado no PS, por acreditar no Dr. António Costa, na sua formação, na sua experiência, nos princípios da sua geração e na sua boa fé mas ... com a sua aliança à extrema esquerda, com as concessões que tem feito aos partidos que a compõem, confesso que fiquei desiludida, revoltada e com uma enorme vontade de lhe virar as costas e demonstrar o meu repúdio.
Senti que, em nome da sua sobrevivência política, o Dr. António Costa ultrapassou todos os limites e traiu a confiança de muitos dos que o têm apoiado. 
Uma coisa é contribuir para ajudar a prover às necessidades dos que são mais desfavorecidos e outra, bem diferente, é sentirmos que estamos a ser esmagados pelos impostos que nos são cobrados, condenados a uma pobreza que repudiamos e não sentimos merecer, castigados apenas e só porque detentores de algum tipo de propriedades e/ou rendimentos que ultrapassem os já crónicos critérios miseráveis de rendimentos deste país.
Não, Senhor Primeiro-Ministro, não é este o modelo político e de desenvolvimento que quero para o meu país, para o país onde os meus filhos nasceram e cresceram, para o país de onde o meu filho mais novo emigrou por saber, de antemão, que nunca alcançaria, aqui, o sucesso, reconhecimento e constante valorização que lhe são proporcionados, lá fora, no país onde se encontra e é feliz.
Os seus critérios de boa governação, para além de ultrapassados estão erradíssimos pois, como é do senso comum e terá ouvido até à exaustão, nos últimos meses, não há possibilidade de redistribuição de rendimentos sem a absolutamente necessária e fundamental criação de riqueza, algo que o senhor vem ignorando, menosprezando e tudo tem feito por aniquilar ... 
Em pleno séc. XXI, Senhor Primeiro-Ministro, como se atreve?!...
Como é possível permanecer, pacificamente, num país que penaliza os que produzem e aspiram a crescer quantas vezes, apenas e só, para alimentar os gravíssimos e imperdoáveis erros cometidos por certas administrações bancárias, empresas mal geridas, o parasitismo e a acomodação reinantes neste país?...
Basta sair à rua, olhar à sua volta, frequentar os locais de consumo e as empresas de serviços e olhe para quem o serve e por quem é atendido... 
Repare na quantidade de imigrantes que, de Norte a Sul do país, por ele circulam ocupando os postos de trabalho que seria suposto serem ocupados por portugueses.
E o problema não está na falta de mão-de-obra nacional, pois não faltam candidatos inscritos nos Centros de Emprego. O problema é bem mais profundo e tem sido alimentado pelas suas políticas de redistribuição, quantas vezes administradas de forma aleatória.
Por favor, Senhor Primeiro Ministro, empenhe-se em fornecer "canas de pesca" a quem as não tem e a ensinar a pescar a quem precisa de aprender a fazê-lo,  mas não castigue aqueles que, devidamente equipados, trabalham, lutam e se esforçam por pescar os peixes que vão aparecendo, num mar ao qual todos têm acesso mas junto do qual nem todos se aproximam.

Enfim!
Tudo isto para dizer que, desta vez, acabei por alterar o meu sentido de voto na esperança e com o objectivo de contribuir para alterar o paradigma, quase fossilizado, que tem sido este do qual temos estado dependentes.
Janeiro/2022 
(Eleições legislativas 2022)

Não consegui aquilo que queria!...
Vou aproveitar esta nova e inesperada oportunidade para continuar a pugnar pelo que continuo a sentir seja uma necessidade urgente de alteração das regras e prioridades políticas.

Alfredo Bruto da Costa, Trabalho e Pobreza (2010)

"A pobreza é um problema político e económico..."


«Entre nós, mais de 20% dos pobres são pessoas empregadas com um salário normal ... são pobres porque têm salários muito baixos e isso é um problema de política económica e não social como nós a entendemos.»

Qual a relação entre o RSI e o desincentivo ao trabalho?

«Culturalmente nós não temos um grande "culto" do trabalho, por duas razões:

- as condições de trabalho da maior parte dos portugueses, tenho dúvidas de que seja um trabalho verdadeiramente digno e que concorra para a realização da pessoa humana. E o trabalho não é uma coisa secundária na vida das pessoas. É uma dimensão fundamental da existência humana.

Ora, a nossa cultura considera o trabalho como uma actividade menor e a maior parte das pessoas trabalha, fundamentalmente, para terem um rendimento e não para realizarem um trabalho enquanto tal. É um efeito perverso, grave, que tem de ser corrigido mas, para isso, tem de haver uma consciência desse facto;

- o trabalho, para além de dever ser digno, deve ser compensado em termos remuneratórios.»

«O padrão cultural de menosprezo pelo trabalho é um padrão construído pela classe média, média-alta e os pobres limitam-se a reproduzir em si um padrão que vêem ser o padrão das classes dominantes da sociedade.»

14 anos volvidos e, já então, o Prof. Alfredo Bruto da Costa punha o dedo na ferida, alertando não só para a situação, como para a necessidade de correcção da mesma!...

The Little Match Girl, a sad cartoon

 Homenagem à capacidade de sonhar e lembrando todos aqueles a quem falta o essencial para viverem com a dignidade e o respeito que merecem.
Para se ser bem ou normalmente sucedido na vida, é preciso esforço, empenho, trabalho, bom senso, mas o factor "sorte", aleatório, que vai acompanhando a mesma, é uma variável que não deve nem pode ser ignorada...

A tragédia da escassez dos recursos naturais

"The earth has enough for man's need, but not for his greed.", M. Gandhi


 In 1968, a man named Garrett Hardin sat down to write an essay about overpopulation. Within it, he discovered a pattern of human behavior that explains some of history’s biggest problems. Nicholas Amendolare describes the tragedy of the commons.

A "tragédia da escassez de bens comuns" é um fenómeno que resulta do facto de muitos indivíduos partilharem recursos limitados ...
Nicholas Amendolare, ao debruçar-se sobre o tema dá, em meu entender, uma excelente explicação sobre o problema.

Irlanda, the great famine: histórias que fizeram História

 
« quando eu era um garoto, ainda na irlanda, costumava pular aqueles muros, belos amontoados de pedras à moda neolítica... de um lado, morava o'reilly, que tinha uma filha, do outro, mcloughlin, de quem meu pai adorava o whiskey caseiro (note-se o e que lhe distingue o sabor genuíno)... aos fundos, bem distante da casa, um pouco mais alta, a única muralha que eu não ousava pular dava para uma falésia... cento e cinquenta e três metros de queda, todos eles contados, absolutamente livres... porra, como era lindo aquele mar!

eu não pulava o muro de o´reilly, que separava o nosso verde do seu verde, os mais verdes que possas imaginar, para bolinar a sua menina... claro, ela era uma garotinha, nascemos no mesmo dia, ao fim de uma jornada cansativa... ainda não era minha namorada, mas eu tinha uma espingarda de pau, um estilingue, e levava algumas pedras nos bolsos para proteger cathy o´reilly de um eventual ataque dos ingleses naquelas longas caminhadas que fazíamos nas tardes de verão... na realidade, eles costumavam aparecer apenas uma vez ao ano, poucos dias após a colheita... geralmente, um grupo de cinco ou seis... o almofadinha no comando sempre tinha em mãos um papel emitido com um timbre que dizia ser da rainha vitória, a afirmá-lo como representante do legítimo proprietário, um tal lord de merda que vivia em londres... vinham cobrar a renda anual...

naquele ano, o segundo consecutivo, não havia batatas a colher, nem mesmo para o nosso próprio sustento... elas apodreciam antes da colheita... nenhum florim, sequer um penny... desta vez, os ingleses estavam em maior número, um pequeno exército... premeditaram não apenas espancar a todos, incluindo meu pai - como no ano anterior, quando mataram o velho mcloughlin, que tentara ajudá-lo -, a ordem agora era expulsar os inquilinos... e queimaram tudo... movidos por um mal que nunca compreendi, sequer levaram os poucos animas, apenas os mataram... no dia seguinte, comemos carne...

as filas cabisbaixas que nos levavam a cork, a dublin ou onde mais, foram dispersando-se... um milhão e meio de irlandeses morreram de fome ou das suas consequências, incluindo meus pais, talvez meus irmãos... fui um escolhido... dois ou três milhões partiram para a américa... reencontrei cathy muitos anos depois, em londres... éramos católicos, portanto tivemos sete filhos juntos, e juntos partimos para o brasil levando quatro deles... chegamos com três... um ano depois, eu, que viera para trabalhar como professor, estava abrindo uma estrada, uma tal linha massaranduba... exausto, buscando o sono numa cabana de pau-a-pique, tive um braço arrancado por uma onça e sangrei até morrer... cathy terá penado muito para criar nossos filhos, mas acredito que teve netos e tudo mais...»

Postado por t.o r.k.m u.r p h.y...
Google Ilustr.

Um repost (2008) de um texto que, continuando a emocionar-me, me faz sentir a necessidade de o dar a conhecer, de o divulgar, fazendo uso dos recursos disponíveis, porque sei ser uma narrativa sentida e vivida, de muito próximo, pelo autor, herdeiro directo deste pedaço de história da Irlanda que tão primorosamente (em meu entender) conseguiu retratar.

Pink Floyd, On the Turning Away (1989)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Temos assistido (eu que o diga!) a passos colossais em termos de desenvolvimento tecnológico que vêm facilitando enormemente as nossas vidas e nos têm aproximado uns dos outros mas, entretanto persistem, repetem-se no tempo, permanecem constantes os problemas estruturais de miséria, pobreza e disfunções sociais que vêm acompanhando as sociedades ao longo de séculos!...