Em busca do equilíbrio entre a constância e "certezas" do Passado e a fluidez e múltiplas contingências do Presente
O Muro de Berlim e a desestruturação de universos familiares
Geração perdida, anos 70 e 80
Partiram todos cedo de mais!...
Unidos por uma amizade profunda, muitas cumplicidades, muitos desvarios, uma fatal atracção pelo risco e viciados em adrenalina, viviam num perigoso mundo de ilusões alimentado pelo consumo de substâncias psicotrópicas (vulgo drogas), um flagelo que assolou a sociedade Portuguesa, ao tempo!
Muito genuínos tinham também, em comum, uma enorme generosidade - sempre me confundiu esta característica em todos aqueles que conheci! - e uma desmedida sofreguidão por consumir os prazeres da vida, alheios à necessidade de passar e vencer as diferentes etapas do normal processo de crescimento, tão necessárias ao prazer que é, também, aprender a gozar, prolongar e saborear cada momento.
Entretanto, conscientes das perturbações que causavam mas incapazes de reverterem a situação, foram motivo de muito sofrimento, grandes dramas, muitas angústias, enormes discórdias, inúmeras alterações de percurso no seio das suas famílias e, em última instância, da desagregação de algumas.
Quanto a estas (famílias), remetidas para silêncios de vergonha feitos, à época, iam definhando na intimidade das quatro paredes de suas casas, por se sentirem incapazes de lidar com os efeitos, diretos e indiretos, familiares e sociais da toxicodependência dos filhos, e impotentes perante a dimensão e poder do "monstro" e dos monstros que, ingenuamente, procuravam enfrentar.
Um rasto de devastação (física, moral e material) que a todos atingiu e ao qual nenhum dos envolvidos escapou salvo, provavelmente, a quem fez desta realidade um negócio!...
Ilustração: Miguel P.A.
Missão cumprida
por um lado, um imenso alívio, um sentimento de libertação dos grilhões de que até há pouco estava prisioneira, atendendo a que parecia hercúlea a tarefa com a qual me tinha comprometido;
por outro, a confusão, uma estranha sensação de vazio que ainda não descobri como ultrapassar, como preencher, na exacta medida da personalidade que é a minha e das necessidades que se lhe adequem .
Mas descobri algo, ao longo destes poucos meses de libertação e liberdade a que há muito aspirava:
quero voltar para "casa", quero voltar para a mesma terra/cidade que me viu crescer, estudar, sonhar, conviver, ganhar experiência e perder, irremediavelmente, alguns dos entes que mais queridos me eram...Quero voltar para a cidade onde me tornei irmã, onde fui mãe, onde gozei, gargalhei, chorei e sofri as maiores desilusões da minha vida ...
quero voltar exactamente para o mesmo lugar de onde me senti obrigada a fugir, em nome de um bem maior, em nome de uma sanidade mental que perigava, não só em relação à minha pessoa mas, também e sobretudo, porque estavam em causa o equilíbrio e desenvolvimento (que queria fosse o mais harmonioso possível), daqueles que de mim eram dependentes.
E exigente como sou, o mero facto de procurar "sobreviver", a qualquer custo, sem lutar, independentemente das inevitáveis mazelas que tinham que acontecer, remodelando-nos, não me satisfazia, nem me satisfaz ...
Hoje, decorridos tantos anos, resta-me a esperança e peço apenas, às instâncias superiores, que os eventuais danos que possam ter sido causados, aos meus, para além de transfigurados enquanto oportunidades de crescimento interior, sejam reduzidos à sua mínima dimensão, enquanto factores perniciosos.

