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O Muro de Berlim e a desestruturação de universos familiares

"Le mur de Berlin - the Berlin's wall 1962, une vidéo de grandmarquis 1960, 1961, mur, wall, west "


Um dia após a comemoração do 34º aniversário do início da queda do Muro de Berlim (9.11.1989), vale a pena ver este pequeno documentário pertencente ao Arquivo Nacional da United States Information Agency.
Ao abordar o tema da sua construção, relata os efeitos devastadores que provocou na sociedade e que conduziram à desestruturação de muitos universos familiares.
Revelando o imenso sofrimento provocado pela brutal e injustificável separação de inúmeras famílias, impele-nos a uma reflexão séria sobre o Autoritarismo, as diferentes formas que este pode assumir e o consequente e esmagador atropelo do livre-arbítrio e emoções humanas.

Geração perdida, anos 70 e 80

 
 Eles eram novos, mesmo muito novos e, apesar dos seus diferentes percursos foram, um a um, sendo apanhados como tordos ... 

 Partiram todos cedo de mais!...

 Unidos por uma amizade profunda, muitas cumplicidades, muitos desvarios, uma fatal atracção pelo risco e viciados em adrenalina, viviam num perigoso mundo de ilusões alimentado pelo consumo de substâncias psicotrópicas (vulgo drogas), um flagelo que assolou a sociedade Portuguesa, ao tempo!

 Muito genuínos tinham também, em comum, uma enorme generosidade -  sempre me confundiu esta característica em todos aqueles que conheci! - e uma desmedida sofreguidão por consumir os prazeres da vida, alheios à necessidade de passar e vencer as diferentes etapas do normal processo de crescimento, tão necessárias ao prazer que é, também, aprender a gozar, prolongar e saborear cada momento.

 Entretanto, conscientes das perturbações que causavam mas incapazes de reverterem a situação, foram motivo de muito sofrimento, grandes dramas, muitas angústias, enormes discórdias, inúmeras alterações de percurso no seio das suas famílias e, em última instância, da desagregação de algumas.

 Quanto a estas (famílias), remetidas para silêncios de vergonha feitos, à época, iam definhando na intimidade das quatro paredes de suas casas, por se sentirem incapazes de lidar com os efeitos, diretos e indiretos, familiares e sociais da toxicodependência dos filhos, e impotentes perante a dimensão e poder do "monstro" e dos monstros que, ingenuamente, procuravam enfrentar.

 Um rasto de devastação (física, moral e material) que a todos atingiu e ao qual nenhum dos envolvidos escapou salvo, provavelmente, a quem fez desta realidade um negócio!...

Ilustração: Miguel P.A.

Missão cumprida

Depois de cumprida a missão que a mim própria impus, e finalmente liberta das preocupações e sacrifícios que acompanharam os, aparentemente intermináveis, anos de luta e determinação, são contraditórios e geradores de confusão os sentimentos que me invadem:
por um lado, um imenso alívio, um sentimento de libertação dos grilhões de que até há pouco estava prisioneira, atendendo a que parecia hercúlea a tarefa com a qual me tinha comprometido;
por outro, a confusão, uma estranha sensação de vazio que ainda não descobri como ultrapassar, como preencher, na exacta medida da personalidade que é a minha e das necessidades que se lhe adequem .
Mas descobri algo, ao longo destes poucos meses de libertação e liberdade a que há muito aspirava:
quero voltar para "casa", quero voltar para a mesma terra/cidade que me viu crescer, estudar, sonhar, conviver, ganhar experiência e perder, irremediavelmente, alguns dos entes que mais queridos me eram...Quero voltar para a cidade onde me tornei irmã, onde fui mãe, onde gozei, gargalhei, chorei e sofri as maiores desilusões da minha vida ...
quero voltar exactamente para o mesmo lugar de onde me senti obrigada a fugir, em nome de um bem maior, em nome de uma  sanidade mental que perigava, não só em relação à minha pessoa mas, também e sobretudo, porque estavam em causa o equilíbrio e desenvolvimento (que queria fosse o mais harmonioso possível), daqueles que de mim eram dependentes.
E exigente como sou, o mero facto de procurar "sobreviver", a qualquer custo, sem lutar, independentemente das inevitáveis mazelas que tinham que acontecer, remodelando-nos, não me satisfazia, nem me satisfaz ...
Hoje, decorridos tantos anos, resta-me a esperança e peço apenas, às instâncias superiores, que os eventuais danos que possam ter sido causados, aos meus, para além de transfigurados enquanto oportunidades de crescimento interior, sejam reduzidos à sua mínima dimensão, enquanto factores perniciosos.

Gravura: Adelans/FB
(15.02.2022)