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A perseverança de um burro

 "Um dia, o burro de um camponês caiu num poço.
O animal gemeu clamorosamente durante horas, e o camponês questionava-se sobre o que fazer.
Finalmente decidiu que, uma vez que o animal era velho e o poço deveria desaparecer, não lhe era rentável recuperar o burro.
Convidou todos os seus vizinhos a vir e a ajudarem.
Pegaram todos em pás e começaram a tapar o poço.
No inicio, o burro percebeu o que estava a acontecer e desatou a zurrar penosamente. Depois, para espanto de todos, calou-se.
Algumas pazadas mais tarde o camponês olhou, finalmente, para o fundo do poço e ficou espantado com o que viu.
Com cada pazada de terra que caía sobre ele, o burro agia de forma espantosa:
agitava-se para sacudir a terra que ia caindo e, depois, subia para cima dela.
À medida que os vizinhos continuavam a atirar terra sobre ele, o burro ia sacudindo e subindo.
Pouco tempo depois ficaram todos surpreendidos com o facto de o burro conseguir sair do poço e começar a trotar."

Trad. e adaptação Maria M. Abreu
Ilustr. Google

Moral da história:
A vida vai trazer-lhe muitos dissabores.
A melhor forma de os ultrapassar é sacudir o que não interessa e avançar.
Para cada um dos problemas que forem surgindo, será uma pedra que irá permitir o avanço/progresso.
Podemos sair dos poços, por mais profundos que sejam, sem nunca parar.

O Machado roubado

 «Lao-Tseu
conta que, um dia, um camponês perdeu o seu machado.
Procurou-o por todo o lado, em casa, mas em vão. 
Ao aperceber-se, entretanto, que um dos seus vizinhos passava desviando o olhar suspeitou, de imediato, que pudesse ter sido ele a roubar-lho.
O homem, de facto, tinha um comportamento suspeito e que levava a crer que tivesse sido o ladrão do machado. O seu rosto, o seu ar, a sua atitude, os seus gestos, as palavras que pronunciava, tudo nele indicava, sem lugar para dúvidas, que fosse ele o ladrão.
Instalada a dúvida, o camponês estava decidido a denunciá-lo, a acusá-lo publicamente e a leva-lo perante um juiz quando, de repente, reencontrou o seu machado, caído no meio dos arbustos, não longe dali.
Quando voltou a ver o seu vizinho, este não apresentava o menor indicio que sugerisse poder ser o ladrão do desaparecido machado.»

Contes philosophiques
Trad. e Adaptação
Maria M. Abreu

... O perigo das presunções baseadas em meros equívocos, sem o suporte de provas concretas.

Ervas Daninhas

«Um velho monge dirigia-se, lentamente, para a aldeia, apreciando o ar doce e perfumado da manhã. Assim que chegou às primeiras casas apercebeu-se de um rapaz que estava sentado e só, enquanto outras crianças brincavam em conjunto. Parecia ter um olhar vazio…
O monge aproximou-se e, sem dizer nada, sentou-se ao seu lado.
O rapaz virou a cabeça e observou o monge, em silêncio.
Imitando a criança, o velho monge poisou as suas mãos sobre os joelhos, com o olhar fixo em frente.
De vez em quando olhava de lado, sorrateiramente…
Ao fim de algum tempo a situação tornou-se cómica. Face às suas expressões faciais a criança sorriu, o monge também e desataram ambos a rir.
Era como se uma torneira se tivesse aberto …
- O meu pai diz que eu não valho nada, não sei ler e falho tudo o que me pede para fazer.
O velho monge sorriu …
- Enganas-te, fizeste-me rir, deste-me alegria e estou-te grato por isso.
A criança fez uma expressão de dúvida.
Então o monge apontou para as plantas que cresciam ao longo do caminho e através das fissuras das paredes das casas e perguntou:
- Sabes o que isto é?
- Sim, sei, são ervas daninhas. O meu pai pediu-me que as arrancasse e nem isso fui capaz de fazer…
- Provavelmente porque tu sabes …
- Sei o quê?..., perguntou o rapaz, perplexo
- Que não são ervas daninhas… Elas escondem-se, passam despercebidas, toda a gente as arranca, mas elas são especiais …
- O que têm elas de especial?...
- Vês aquela que cresce na fissura da parede?
- Sim, vejo…
- Pois bem, as suas raízes secas e reduzidas a pó servem para combater a febre; e a outra, a que cresce no meio do caminho, suaviza a garganta e acalma a tosse…
O rapaz escutava, abismado!...
- Aquela, ali, acalma as dores de barriga e as cólicas dos bébés …
O monge continuou a mostrar-lhe uma quantidade enorme de “ervas daninhas” que cresciam à volta deles e, segundo ele, todas tinham uma função.
- Todas estas plantas a que, com frequência, chamamos “ervas daninhas” contêm um tesouro em si próprias. Aquele que conhecer o seu segredo será capaz de curar ou aliviar muitos problemas…
Todas têm uma grande riqueza dentro de si; não podemos olhar para elas só pela aparência, mas pelo que têm e são na sua essência…
- É verdade que podem curar?...
- Sim, e eu penso que, no fundo, tu sabias e que foi essa a razão pela qual as não arrancaste…
Se quiseres ir para o mosteiro, poderás aprender a conhecê-las …
O rapaz aceitou e o pai ficou satisfeito, pois seria menos uma boca a sustentar.
Foi crescendo, aprendendo e tornou-se um jovem robusto e com inesgotáveis conhecimentos sobre plantas.
...Um velho monge dirigia-se, lentamente, para a aldeia, apreciando o ar doce e perfumado da manhã.
Assim que chegou às primeiras casas, dirigiu-se para uma especial.
Era uma loja onde se vendiam plantas para tratamento de doenças e que tinha uma tabuleta:
“Aqui não há ervas daninhas”.
De dentro saiu um homem jovem e sorridente e, com ele, uma miscelânea de diferentes aromas.
Olhando um para o outro sentaram-se depois, lado a lado, sem dizer palavra.
O monge imitou o jovem e colocou as mãos sobre os joelhos, com o olhar fixo à sua frente.
De vez em quando, olhava de lado, sorrateiramente…
De repente o jovem e o monge desataram a rir à gargalhada…
O essencial vê-se com o coração.
“Aqui não existem ervas daninhas”

Ilustr. Janet Duncan, "Through the weeds"
Contes philosophiques
Trad. e adap.: Maria M. Abreu

Diogenes, uma lição de Dignidade

«Um dia, na cidade de Atenas, na Grécia, Diogenes comia um prato de lentilhas sentado na soleira de uma porta.
Não havia em toda a cidade alimento mais barato do que as lentilhas.
Dito de outra forma, era uma situação reveladora de uma condição de extrema pobreza.
Um ministro do imperador passou por ele e disse-lhe:
- “Pobre Diogenes! Se aprendesses a ser mais submisso e te dispusesses a lisonjear um pouco o imperador, não terias de engolir  tantas lentilhas”.
Diogenes parou de comer, levantou os olhos e fixando intensamente o seu rico interlocutor, respondeu:
- "Pobre de ti, meu irmão. Se aprendesses a consumir um pouco de lentilhas, não terias necessidade de ser submisso e de tanto bajular o imperador”.»

Ilustação: La scuola di Atena 
Contes Philosophiques
Trad/adapt.: Maria M. Abreu

Siddharta Gautama (Buda), sobre a Verdade

«Um dia, o grande Gautama levou todos os seus discípulos cegos a conhecer um elefante.
Nunca nenhum o tinha visto!
Então todos, simultaneamente, tiveram a oportunidade de lhe tocar e de constatar, através dos seus próprios sentidos, qual era a sua forma - a do elefante;
um deles segurou-lhe na cauda, o outro na tromba, outro montou-o e sentou-se sobre ele, outro passou as mãos pelos seus dentes e outro, ainda, tocou-lhe as pernas …
Interrogados mais tarde sobre as suas experiências individuais, responderam:
- O elefante é como uma cobra!... 
- É falso!... As cobras são pequenas e o elefante é como uma montanha!... 
- O elefante é duro!... Não, é mole, eu senti-o...~
Aconteceu, então, que o velho Sábio interveio:
-"Assim somos nós homens, os cegos, e o elefante é o Universo…
O não conhecimento de toda a Verdade, na sua totalidade, é que leva à contradição."»

Ilustr. Google

A Serpente e os Aldeões, conto indiano

«Perto de uma pequena aldeia da India vivia uma enorme serpente que aterrorizava os habitantes, atacando de morte aqueles que se aproximavam.
Exasperados, os aldeões juntaram-se e foram procurar um homem sábio para se queixarem da sua maldade.
Depois de os ouvir, o sábio foi ter com a serpente. Falou com ela durante muito tempo criticando o seu mau comportamento… "Que mal lhe tinham feito os aldeões?" … "Qual a causa de tantas mortes e violência gratuitas?"...
Ele foi de tal maneira convincente que a serpente ficou perturbada. Jurou emendar-se e manteve a sua palavra.
A partir desse dia não foi mais a mesma. Ela, aquele réptil outrora aterrador, transformou-se numa espécie de longo verme, esguio e flácido. Perdeu toda a sua força não ousando, mesmo, engolir a mais pequena das lesmas.
Os aldeões, que tinham a memória curta, vieram troçar da sua fraqueza. "De que lhe valia ter presas venenosas se não fazia uso delas"!...
Quanto às crianças, de cada vez que passavam por ela, atiravam-lhe pedras ou davam-lhe pontapés.
Ao fim de vários meses nesta situação, a serpente estava cansada de todos os golpes sofridos. 
Arrastou-se com dificuldade até casa do sábio e, por seu turno, expôs-lhe os seus problemas.
- Fiz tudo o que me pediste e tenho a impressão de já não ser eu mesma. Os aldeões já não me temem e perderam todo o respeito que tinham por mim. Desprezam-me, batem-me e tenho o coração a sangrar. O que me aconselhas?
- É muito simples o que tenho para te dizer, respondeu-lhe o sábio.
Proibi-te de atacares os aldeões de morte, quando não há razão para tal. Mas … alguma vez te proibi de sibilar?...»

Ilustr.Google
Graphomage
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

A corrida de Rãs

«Era uma vez uma corrida … de rãs.
O objectivo era chegar ao topo de uma grande torre.
Juntou-se muita gente para as ver e apoiar.
A corrida começou.
Com efeito, a maioria das pessoas não acreditava que fosse possível as rãs conseguirem chegar à meta e as vozes que se ouviam iam nesse sentido:
- “Que pena! Elas nunca conseguirão…”
As rãs começaram, progressivamente, a resignar-se excepto uma que continuou a subir enquanto as pessoas iam gritando:
- “Que pena … elas não vão conseguir ...  Nunca lá chegarão! …”
E as rãs foram-se dando por vencidas salvo uma, a mesma que teimava em não desistir, continuando a subir.
Por fim desistiram todas menos aquela que, só e com um enorme esforço, conseguiu alcançar o topo da corrida.
Abismadas, as outras quiseram saber como é que ela tinha conseguido terminar a prova.
Houve mesmo uma que, curiosa, se aproximou para lhe perguntar como o tinha feito e, para sua grande surpresa veio a descobrir que … a vencedora era surda!...»

Ilustr. Tree frog silk painting by Tammy Vaughan
Contes philosophiques
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

O Vendedor de Cachorros Quentes

 «Um homem vivia à beira de uma estrada e vendia cachorros quentes.
Não tinha rádio, não tinha televisão e nem lia jornais, mas produzia e vendia os melhores cachorros quentes da região.
Preocupava-se com a divulgação do seu negócio e colocava cartazes pela estrada, oferecia o seu produto em voz alta e o povo comprava e gostava.
As vendas foram aumentando e cada vez mais ele comprava o melhor pão e as melhores salsichas.
Foi necessário também adquirir um fogão maior para atender a grande quantidade de fregueses.
O negócio prosperava.
Os seus cachorros-quentes eram os melhores!
Com o dinheiro que ganhou conseguiu pagar uma boa escola ao filho.
O miúdo cresceu e foi estudar Economia numa das melhores Faculdades do país.
Finalmente o filho, já formado, voltou para casa e notou que o pai continuava com a vida de sempre, vendendo cachorros-quentes feitos com os melhores ingredientes e gastando dinheiro em cartazes e teve uma séria conversa com o pai:
- "Pai, não ouve rádio? Não vê televisão? Não lê os jornais? Há uma grande crise no mundo. A situação do nosso País é crítica. Há que economizar!"
Depois de ouvir as considerações do filho "doutor", o pai pensou:
Bem, se o meu filho, que estudou Economia na melhor Faculdade, lê jornais, vê televisão e internet acha isto, então só pode ter razão!
Com medo da crise, o pai procurou um fornecedor de pão mais barato (e, é claro, pior).
Começou a comprar salsichas mais baratas (que eram, também, piores).
Para economizar, deixou de mandar fazer cartazes para colocar na estrada.
Abatido pela notícia da crise já não oferecia o seu produto em voz alta.
Tomadas essas 'providências', as vendas começaram a cair e foram caindo, caindo até chegarem a níveis insuportáveis.
O negócio de cachorros-quentes do homem, que antes gerava recursos, faliu.
O pai, triste, disse ao filho:
-"Estavas certo filho, nós estamos no meio de uma grande crise."
E comentou com os amigos, orgulhoso:
-"Bendita a hora em que pus o meu filho a estudar economia, ele é que me avisou da crise..."»

VIVEMOS NUM MUNDO CONTAMINADO DE MÁS NOTICIAS E SE NÃO TOMARMOS O DEVIDO CUIDADO, ESSAS MÁS NOTICIAS INFLUENCIAR-NOS-ÃO AO PONTO DE NOS  ROUBAREM  A  PROSPERIDADE.

O texto original foi publicado em 24 de Fevereiro de 1958 num anúncio da Quaker State Metals, Co

A Ponte de Praga

  «Era uma vez, na cidade de Cracóvia, um velho compreensivo e solidário que se chamava Izy.
Durante várias noites Izy sonhou que viajava até Praga e que chegava até uma ponte, sobre um rio.
Sonhou também que, de um lado do rio e debaixo da ponte se encontrava uma árvore de grande porte. E sonhou que cavava um buraco ao lado da árvore, e de lá saía um tesouro que lhe traria bem-estar e tranquilidade para o resto da sua vida.
Ao principio, não lhe deu importância.
Mas, como o sonho se repetiu durante várias semanas, interpretou o facto como sendo uma mensagem e decidiu que não podia fazer "ouvidos de mercador" a esta informação, que lhe chegava de Deus, ou do além, enquanto dormia.
Assim, fiel à sua intuição, carregou a sua mula para uma grande viagem e partiu em direcção a Praga.
Depois de seis dias de marcha, o velhinho chegou a Praga e dedicou-se à procura da ponte sobre o rio, fora da cidade.
Como não havia muitos rios, nem muitas pontes encontrou, rapidamente, o lugar que procurava. Era em tudo semelhante ao seu sonho: o rio, a ponte e, numa das margens do rio, a árvore sob a qual deveria cavar.
Havia, apenas, um detalhe que não tinha aparecido no seu sonho: a ponte estava guardada, noite e dia, por um soldado da guarda imperial.
Izy não ousou cavar enquanto o soldado lá estava e, por isso, decidiu acampar perto da ponte e esperar.
Na segunda noite, o soldado começou a desconfiar deste homem que acampava perto da ponte, e aproximou-se para o interrogar.
O velho Izy não viu razões para lhe mentir.
Ele tinha vindo de uma cidade tão longínqua porque tinha sonhado que, em Praga, havia um tesouro enterrado. 
O soldado desatou a rir, à gargalhada.
- "O senhor fez uma grande viagem ao disparate - disse ele - Há três anos que sonho todas as noites que, na cidade de Cracóvia, há um tesouro enterrado sob a cozinha de um velho louco chamado Izy. Ah,ah,ah!... O senhor acha que eu deveria ir a Cracóvia procurar esse Izy e cavar sob a sua cozinha?".
Izy agradeceu amavelmente ao soldado e voltou para casa.
Ao chegar, cavou um buraco na sua cozinha e encontrou o tesouro que sempre lá tinha estado enterrado.»

Este conto chama à atenção para o facto de que, com alguma frequência, a felicidade a que aspiramos está bem perto de nós; precisamos, no entanto, de algo que nos abra os olhos, de uma espécie de viagem iniciática, para que nos possamos aperceber e, eventualmente, reconhecer.

CONTES de SAGESSE du monde entier
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

O Golem, lenda yiddish

 «Há muito tempo, na cidade de Praga, na Boémia, reinava o terrível imperador Rudolfo II, o Católico.
Em nome da sua fé, perseguia os judeus e os protestantes.
Os tribunais e as prisões estavam repletos de pessoas pobres que eram condenadas à morte pelo facto de rezarem de uma forma diferente da de sua Majestade.
Ora, na madrugada de um dia do mês de Nissan (Março), o conde Jan Bratislawski acabava de perder ao jogo os últimos ducados da sua imensa fortuna e ainda mais do que aquilo que lhe pertencia.
Este homem sem honra tinha delapidado os seus bens a guerrear em vão, a jogar, a beber e a festejar.
A sua mulher tinha morrido de desgosto deixando uma filha, Hanka, à qual tinha deixado em herança as suas joias, no valor de mais de um milhão de ducados.
Na mesma época, na cidade de Praga, vivia Reb Eliezer Polner.
Era um banqueiro judeu amado e conhecido não só na Boémia como, também, no resto da Europa, pela sua caridade incansável.
Reb Eliezer já era velho e, para sua infelicidade, era o banqueiro do conde Bratislawski, a quem tinha emprestado muito dinheiro e que, claro, nunca foi devolvido pelo conde.
No escritório de Reb Eliezer, o conde Bratilawski gritava:
- Empreste-me o dinheiro! Preciso dele!
- Não, vossa senhoria, respondeu Reb Eliezer, já deveis demasiado ao meu banco. Não vos emprestarei mais nada.
- Judeu! Terei o dinheiro, cuspiu o conde. Pagarás caro a tua insolência. Lembrar-te-ás do que te digo no momento em que fores enforcado.
“A vida e a morte estão nas mãos de Deus”, pensou Reb Eliezer e, como estava a poucos dias da Páscoa hebraica, foi para casa estudar a Bíblia e o Talmud até ao jantar.
Da cozinha saíam odores a festa. Em particular os dos matzot, os pães da Páscoa, que estavam no forno.
Ora, nessa mesma noite, os soldados do imperador irromperam pela casa de Reb Eliezer, amarraram-no e levaram-no para a prisão sem explicação.
Todos os judeus do ghetto souberam, assim, que o terror iria também atingi-los…
Viraram-se, então, para o único homem que podia afastar o mal, pelas suas orações e a sua imensa cultura: o rabi Loew (1513-1609) .
Assim que o rabi começou a rezar com fervor pela salvação de todos apareceu-lhe um anjo cujo olhar tinha a profundidade do céu.
- “Que a paz esteja contigo, Justo entre os justos!”, disse-lhe o rabi. Um terrível infortúnio atingiu os judeus de Praga! O juiz vai condenar à morte Reb Eliezer, pelo assassínio de Hanka, a filha do conde Bratislawski. O conde acusa-o de ter morto a sua filha para misturar o seu sangue aos matzot. É falso e nós sabemos que o conde quer apoderar-se das jóias que a sua mulher legou a Hanka para pagar uma dívida de jogo. Mas a pequena desapareceu e nós não sabemos o que fazer.”
- “Sei tudo isso, respondeu o anjo. Vim para te deixar uma mensagem:
Com argila, moldarás um golem. Gravarás na sua fronte um dos nomes de Deus e, com o poder do Nome Sagrado, sereis salvos. Ele viverá o tempo necessário para cumprir a sua missão e o seu nome será José.”
Depois a imagem do enviado celeste desapareceu docemente.
O rabi Leib foi ao rio e juntou uma grande quantidade de lama que meteu em sacos de lona. Levou os sacos para o sótão da sinagoga e lá, com a argila que recolheu modelou, com as suas mãos, um gigante de forma humana.
Depois deu-lhe vida gravando na sua fronte, com letras minúsculas, um dos nomes secretos de Deus, aquele que o anjo lhe tinha murmurado.
Assim que a última letra foi escrita, o golem respirou e endireitou-se.
O rabi Loew disse-lhe:
- Estás a ouvir-me, Golem?
- Sim, respondeu o golem em tom cavernoso.
- Golem, doravante chamas-te José. Vens da terra e a terra tudo sabe. Vai e procura Hanka. Quando a encontrares, vais trazê-la, para podermos provar aos nossos inimigos que são falsas as suas acusações.
- Sim, respondeu o golem com uma voz tão assustadora que fez tremer as paredes.
No tribunal, no dia do julgamento de Reb Eliezer, as mulheres choravam na sala de audiências enquanto o juiz vociferava:
-Vós, os judeus e o vosso maldito Talmud, estais sedentos do sangue dos católicos. Toda a vossa comunidade é responsável.
O conde Bratislawski julgava ter atingido os seus objectivos e rejubilava quando se ouviu o ressoar de uma porta partida. 
Apareceu um gigante com uma menina nos seus braços. Pousando-a no chão, a criança correu imediatamente para junto do conde, enquanto exclamava “Papá!”, “Papá”. 
Era Hanka, que tinha sido encontrada pelo golem numa cave do castelo do conde, onde o seu pai a tinha escondido.
O juiz libertou Reb Eliezer e condenou o conde Bratislawski ao exílio.
O rabi Leib apagou o Nome Sagrado da fronte do golam para o adormecer e disse-lhe:
- Tu vens do pó e ao pó irás tornar. O pó regressa à terra de onde veio. »

"Lire et Récréer"
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Atitudes

«Naquela manhã chovia torrencialmente.
Era uma chuva forte, penetrante, que não convidava ninguém a sair.
Havia, entretanto, três pessoas, cada uma na sua respetiva casa, que se preparavam para enfrentar a intempérie.
O primeiro, usando um chapéu de palha, óculos de sol cor-de-rosa no nariz e vestindo umas simples bermudas floridas saiu, procurando convencer-se de que estava um tempo óptimo, cantarolando bem alto.
Alguns minutos mais tarde foi parado pela polícia que o levou para a prisão, onde acabou por morrer de congestionamento, no próprio dia.
Tinha-se recusado a enfrentar a realidade e acreditava que o simples facto de negar a existência da tempestade seria suficiente para a ultrapassar…
O segundo, por detrás da sua janela, pensou que não seria de modo algum razoável aventurar-se a sair com semelhante tempo e que seria preferível esperar pelo dia seguinte ou, mesmo, dois dias depois.
Mas a chuva não parava de cair, cada vez mais forte à medida que os dias iam passando.
Ao fim de algumas semanas, acabou por morrer de fome.
Olhando para a tempestade, acabou por se debruçar sobre si próprio e não reagir, sempre na esperança da chegada de uma hipotética acalmia do tempo.
Quanto ao terceiro, face à mesma situação de forte chuva, decidiu pôr-se a caminho, enquanto verificava a solidez do seu guarda-chuva e a resistência do seu impermeável.
Passou depois em revista os encontros que tinha agendado para o dia e abriu a porta.
No exterior, a tempestade rugia. Hesitou por instantes, recompôs-se e murmurou entre dentes: “Nunca vi semelhante temporal! É desumano! Não é seguramente hoje que os concorrentes vão congestionar o sector.”
Enchendo-se de coragem, lançou-se na tempestade convencido de que os verdadeiros navegadores só se distinguem entre si quando o mar está alteroso...
E, como seria de esperar, triunfou!»

Frédéric Chartier
Petit conte philosophique à l’usage des vendeurs que la crise inquiète...(2005)
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Estratégia de Mestre

"Um jovem monge debatia-se com um sério problema:
era preciso reparar o telhado do mosteiro mas não havia meios para o fazer, uma vez que a riqueza deste templo se resumia ao amor e compreensão que aí reinavam.
Sem saber o que fazer sentou-se e pensou no velho monge que tinha sido seu mestre; ele, sim, saberia como resolver o problema!...
Enquanto permanecia em silêncio surgiu-lhe, de repente, uma ideia. Pegou num carrinho de mão e partiu em direcção à aldeia.
Antes de partir informou os outros monges:
- Vou à aldeia procurar uma solução para reparar o telhado.
- Como? Os aldeões não são ricos, não poderão dar-te dinheiro …
O jovem monge sorriu e partiu. 
Quando chegou à entrada da aldeia dirigiu-se à primeira casa.
- Bom dia, o meu mestre disse-me que aqui encontraria sempre ajuda …
O aldeão inclinou-se, pegou na taça do monge e encheu-a de arroz. Este, por sua vez, pegou na taça e verteu-a para dentro do carrinho-de-mão.
E assim prosseguiu, indo de casa em casa. 
A bondade do seu velho mestre estava na memória de todas estas pessoas e cada uma delas contribuiu com uma taça de arroz.
Em seguida foi para uma outra aldeia e fez o mesmo.
A estratégia foi tão bem sucedida que, por fim, o carrinho ficou cheio de arroz.
Depois foi, ainda, a uma outra aldeia próxima, vendeu uma parte do arroz e ofereceu o que sobrou aos pobres sem abrigo.
E assim, com o dinheiro que ganhou na venda do arroz pôde mandar reparar o telhado do mosteiro.
Mais tarde sentou-se em frente ao mosteiro a sorrir, sentindo a presença do seu velho mestre."

Contes Philosophiques
Trad/Adaptação: Maria M. Abreu

Salvos por uma Planta

" Há muito tempo, na China, uma caravana de mercadores foi atacada por bandidos, numa região isolada, longe de qualquer aldeia.
Os mercadores e os seus criados abandonaram a caravana e fugiram para as colinas.
Cedo se esgotaram os seus alimentos e eles enfrentaram, então, a aterradora perspectiva da Fome.
Um dos criados encontrou, por acaso, uma planta que estava coberta de vagens, contendo pequenos feijões.
Ninguém sabia que espécie de planta era aquela mas descobriram, rapidamente, que muitas plantas semelhantes cresciam naquela região.
Os mercadores decidiram, então, fazer uma experiência.
Pediram aos seus criados que esmagassem aqueles pequenos feijões até serem reduzidos a farinha e usaram-na para fazer "chappatis". E assim foi.
Os "chappatis", apesar de não serem muito saborosos, eram bastante nutritivos.
Depois de alguns dias a fazer esta dieta, os mercadores e os seus criados sentiram-se suficientemente fortes para lançar um contra-ataque aos bandidos e conseguiram reaver a posse das suas caravanas. Levaram consigo vários exemplares daquela planta e, em breve, a mesma passou a ser cultivada em toda a China.
Que planta, notável, era aquela?... Os chineses chamaram-lhe Soja.
Não se sabe até que ponto esta história da descoberta da Soja é verdadeira, mas há razões para acreditar que a planta começou a ser cultivada, na China, há mais de 5.000 anos.
Hoje em dia, é uma das mais úteis e baratas fontes de proteína."

Tradução e adaptação do conto « Saved by a Plant »
Maria M.Abreu

UBUNTU

Um antropólogo propôs um jogo a um grupo de crianças de uma tribo africana.
Colocou um cesto cheio de fruta junto de uma árvore e disse às crianças que o primeiro a encontrá-lo ficaria com todos os frutos. 
Quando lhes deu sinal para correrem, as crianças deram as mãos umas às outras e correram juntas, sentando-se depois a comer a fruta. 
Ao perguntar-lhes porque tinham corrido assim quando, afinal, apenas um poderia ter ganho e ficado com todos os frutos só para si, eles responderam:

"UBUNTU, como pode cada um de nós ser feliz, se todos os outros estiverem tristes?"

'UBUNTU', na cultura Xhosa significa: "Eu sou, porque nós somos" (eu sou, existo, identifico-me enquanto parte de um Todo).

Tradução e adaptação: Maria M.Abreu

Salvar é a minha natureza

« Dois monges estavam a lavar as suas tigelas à beira de um rio quando repararam que um escorpião se estava a afogar.
Um dos monges, imediatamente, pegou nele e colocou-o na margem.
Durante este processo foi picado.
Continuou a lavar a sua tigela e, de novo, o escorpião caíu ao rio.
O monge voltou a salvar o escorpião e foi, novamente, picado.
O outro monge perguntou-lhe:
- Amigo, porque continuas a salvar o escorpião quando sabes que a sua natureza é picar?
- Porque - respondeu o monge - salvar, é a minha natureza.»

Trad. e adaptação: Maria M. Abreu 

O contributo do Colibri

« Um dia, houve um enorme incêndio na floresta.
Aterrorizados, todos os animais observavam, impotentes, este desastre.
Apenas o pequeno colibri, tão frágil quanto determinado, tomou a iniciativa de ir procurar água e, transportando-a no seu bico, lançava pequenas gotas sobre o fogo repetindo, incansavelmente, a tarefa que se tinha proposto.
Ao fim de algum tempo o tatu, irritado com esta actividade que, a seus olhos, era inútil ,disse-lhe:
- Colibri! Não achas que estás a ser tonto? Será que acreditas ser capaz de apagar o fogo com essas gotas de água?
- Eu sei, respondeu o colibri, mas ao menos faço o que posso.
Contribuo com a minha parte.»

Ilustração: Google

Os Três Crivos

« Um dia, ao sair do alpendre onde tinha estado a conversar com um grupo de jovens, um velho sábio, a quem chamaremos “Sócrates” em homenagem ao bem conhecido filósofo, encontrou-se frente a um homem que conhecia e que lhe disse, em tom confidencial:
- Escuta, Sócrates, entre os teus auditores há um jovem pouco recomendável, indigno da tua confiança. Quando te fizer a descrição dos seus actos, penso que o banirás do teu grupo.
- Estou pronto a escutar-te – respondeu Sócrates – e a tomar as medidas que forem necessárias. Mas primeiro deixa-me perceber melhor o que estás prestes a contar-me.
Fizeste passar as tuas palavras através dos três crivos?
- Os três crivos, o que é isso? - perguntou o homem
- O primeiro crivo, é o da Verdade.
Tens a certeza de que o que vais contar-me é verdadeiro e tem fundamento? Verificaste ou observaste com os teus próprios olhos?
- Para dizer a verdade – respondeu o homem, depois de um momento de hesitação – ouvi contar, mas não confirmei.
- A prova do primeiro crivo não foi bem sucedida – disse Sócrates – passemos ao segundo.
O crivo da Bondade.
Vais contar-me algo de bom ou positivo sobre esse homem?
- Pelo contrário – respondeu – ia falar-te mal dele.
- Sendo assim, as tuas palavras também não passam a prova do segundo crivo – diz Sócrates – vejamos o último, o crivo da Utilidade.
Este homem será beneficiado pelo facto de eu o excluir do círculo dos meus interlocutores? 
Não será mais útil que ele fique comigo e beneficie dos meus ensinamentos, a fim de melhorar?
- Creio que tens razão – respondeu o homem – Se bem compreendi, cada vez que eu tiver vontade de contar algo sobre alguém, devo fazer passar as minhas palavras através dos três crivos?
- Compreendeste perfeitamente – diz Sócrates
- Basta não passar em um só dos três crivos para deveres renunciar. Será melhor.»

metafora.ch
Trad. e adaptação: Maria M. Abreu

A Taça de Chá

« Nan-in, um mestre japonês do séc.XIX recebeu, um dia, a visita de um professor universitário americano interessado em obter mais informações sobre a filosofia Zen.
Enquanto Nan-In preparava silenciosamente o chá o professor entretinha-se a dissertar sobre os seus próprios pontos de vista filosóficos. 
Assim que o chá ficou pronto, Nan-in começou a verter, muito suavemente, a bebida a ferver na taça do seu visitante. 
O professor não parava de falar. E Nan-In continuou a verter o chá até que a taça transbordou. 
Alarmado ao ver como a bebida se espalhava pela mesa, arruinando a cerimónia do chá, o professor exclamou:
- Mas, a taça está cheia!… Não conterá sequer uma única gota a mais!
Tranquilamente Nan-in respondeu:
- O professor é como esta taça, já está cheio das suas próprias opiniões e especulações.
Como poderei falar-lhe do Zen se ainda não começou por se esvaziar a si próprio? »

Philosophie et Spiritualité
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Obcecado

« Dois monges em viagem chegaram à beira de um rio, onde encontraram uma mulher jovem.
Receosa da corrente, ela pediu-lhes se a podiam transportar para o outro lado.
Um dos monges hesitou, mas o outro rapidamente lhe pegou e a colocou em cima dos seus ombros, atravessou o rio e colocou-a na outra margem. Ela agradeceu-lhe e partiu.
Continuando a sua viagem, o monge hesitante estava pensativo e preocupado. Incapaz de prolongar o seu silêncio, disse:
- Irmão, o nosso treino espiritual ensina-nos a evitar qualquer contacto com as mulheres, mas tu pegaste nesta e transportaste-a aos teus ombros!
-  Irmão - respondeu o outro monge - eu levei-a para a outra margem, de facto, mas tu continuas a carregá-la contigo...»

Ilustr. "Chinese wise man" by Chris Motta
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

O Cedro, conto tradicional Cherokee

« Há muito tempo, quando o povo Cherokee apareceu na Terra, começou a pensar que a vida seria muito melhor se nunca houvesse noite.
Imploraram então, ao Criador, que fizesse com que fosse sempre dia - dias intermináveis, que se sucederiam uns aos outros, sem lugar para as noites.
O Criador ouviu as sua vozes, prestou-lhes toda a atenção e acedeu aos seus desejos.
Muito em breve, a floresta tornou-se cerrada e densa. Nos campos, as pessoas trabalhavam arduamente, durante longas horas. O clima aqueceu, os dias eram cada vez mais quentes, e assim continuaram dias após dias.
As pessoas deixaram de ter sono e tornaram-se mal-humoradas.
Apercebendo-se do seu erro, o povo implorou ao Criador:
- "Cometemos um erro ao pedir para que fosse sempre dia. Pensamos, agora, que só deveremos ter noites. Queremos que seja sempre noite."
Apesar de todas as coisas terem sido criadas de forma dual: dia e noite, vida e morte, bem e mal, tempos de abundância e tempos de fome, o Criador amava o Povo e decidiu fazer o que pediam. Acabaram-se os dias e a noite caiu sobre a Terra.
Em breve as colheitas pararam de crescer e o tempo ficou muito frio.
O Povo começou a passar muito do seu tempo a reunir lenha para fazer as suas fogueiras.
Não conseguiam ver para caçar e, cedo, ficaram cheios de frio, fracos e famintos.
Muitos morreram de fome.
Os que sobreviveram juntaram-se, de novo, para implorar ao Criador: 
- "Ajuda-nos, oh Criador" gritaram "Cometemos um erro terrível! Desde o princípio que fizeste o dia e a noite, de forma perfeita, e como deveria ter sido sempre. 
Pedimos-te que nos perdoes e nos devolvas o dia e a noite como era, no início."
Uma vez mais o Criador ouviu o pedido do Povo.
O dia e a noite regressaram, tal como o Povo havia pedido e como tinha acontecido, inicialmente.
Cada dia estava dividido entre a luz e a escuridão. 
O clima tornou-se agradável e as colheitas cresceram de novo. 
A caça abundava e o Povo tinha muito que comer, tornando-se saudável. 
Lidavam entre si com compaixão e respeito. 
Era bom estarem vivos.
O Povo agradeceu, então, ao Criador a sua nova vida e a quantidade de alimentos que tinham para comer. 
O Criador aceitou a gratidão do Povo e ficou feliz de os ver sorrir de novo.
Contudo, durante o tempo das longas e intermináveis noites, muitas pessoas morreram.
O Criador colocou, então, os seus espíritos numa árvore recentemente criada: o Cedro.
Os Cherokee acreditam que a madeira de Cedro possui poderosos espíritos protetores. 
Muitos trazem consigo pequenos pedaços de madeira de cedro nos seus pequenos sacos de magia, usados à volta do pescoço.
Também é colocada na entrada das casas, enquanto escudo protetor, para prevenir a entrada de espíritos malignos.
O tradicional tambor é feito com madeira de cedro.»

Google Ilustr.
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu