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A perseverança de um burro

 "Um dia, o burro de um camponês caiu num poço.
O animal gemeu clamorosamente durante horas, e o camponês questionava-se sobre o que fazer.
Finalmente decidiu que, uma vez que o animal era velho e o poço deveria desaparecer, não lhe era rentável recuperar o burro.
Convidou todos os seus vizinhos a vir e a ajudarem.
Pegaram todos em pás e começaram a tapar o poço.
No inicio, o burro percebeu o que estava a acontecer e desatou a zurrar penosamente. Depois, para espanto de todos, calou-se.
Algumas pazadas mais tarde o camponês olhou, finalmente, para o fundo do poço e ficou espantado com o que viu.
Com cada pazada de terra que caía sobre ele, o burro agia de forma espantosa:
agitava-se para sacudir a terra que ia caindo e, depois, subia para cima dela.
À medida que os vizinhos continuavam a atirar terra sobre ele, o burro ia sacudindo e subindo.
Pouco tempo depois ficaram todos surpreendidos com o facto de o burro conseguir sair do poço e começar a trotar."

Trad. e adaptação Maria M. Abreu
Ilustr. Google

Moral da história:
A vida vai trazer-lhe muitos dissabores.
A melhor forma de os ultrapassar é sacudir o que não interessa e avançar.
Para cada um dos problemas que forem surgindo, será uma pedra que irá permitir o avanço/progresso.
Podemos sair dos poços, por mais profundos que sejam, sem nunca parar.

O Machado roubado

 «Lao-Tseu
conta que, um dia, um camponês perdeu o seu machado.
Procurou-o por todo o lado, em casa, mas em vão. 
Ao aperceber-se, entretanto, que um dos seus vizinhos passava desviando o olhar suspeitou, de imediato, que pudesse ter sido ele a roubar-lho.
O homem, de facto, tinha um comportamento suspeito e que levava a crer que tivesse sido o ladrão do machado. O seu rosto, o seu ar, a sua atitude, os seus gestos, as palavras que pronunciava, tudo nele indicava, sem lugar para dúvidas, que fosse ele o ladrão.
Instalada a dúvida, o camponês estava decidido a denunciá-lo, a acusá-lo publicamente e a leva-lo perante um juiz quando, de repente, reencontrou o seu machado, caído no meio dos arbustos, não longe dali.
Quando voltou a ver o seu vizinho, este não apresentava o menor indicio que sugerisse poder ser o ladrão do desaparecido machado.»

Contes philosophiques
Trad. e Adaptação
Maria M. Abreu

... O perigo das presunções baseadas em meros equívocos, sem o suporte de provas concretas.

Ervas Daninhas

«Um velho monge dirigia-se, lentamente, para a aldeia, apreciando o ar doce e perfumado da manhã. Assim que chegou às primeiras casas apercebeu-se de um rapaz que estava sentado e só, enquanto outras crianças brincavam em conjunto. Parecia ter um olhar vazio…
O monge aproximou-se e, sem dizer nada, sentou-se ao seu lado.
O rapaz virou a cabeça e observou o monge, em silêncio.
Imitando a criança, o velho monge poisou as suas mãos sobre os joelhos, com o olhar fixo em frente.
De vez em quando olhava de lado, sorrateiramente…
Ao fim de algum tempo a situação tornou-se cómica. Face às suas expressões faciais a criança sorriu, o monge também e desataram ambos a rir.
Era como se uma torneira se tivesse aberto …
- O meu pai diz que eu não valho nada, não sei ler e falho tudo o que me pede para fazer.
O velho monge sorriu …
- Enganas-te, fizeste-me rir, deste-me alegria e estou-te grato por isso.
A criança fez uma expressão de dúvida.
Então o monge apontou para as plantas que cresciam ao longo do caminho e através das fissuras das paredes das casas e perguntou:
- Sabes o que isto é?
- Sim, sei, são ervas daninhas. O meu pai pediu-me que as arrancasse e nem isso fui capaz de fazer…
- Provavelmente porque tu sabes …
- Sei o quê?..., perguntou o rapaz, perplexo
- Que não são ervas daninhas… Elas escondem-se, passam despercebidas, toda a gente as arranca, mas elas são especiais …
- O que têm elas de especial?...
- Vês aquela que cresce na fissura da parede?
- Sim, vejo…
- Pois bem, as suas raízes secas e reduzidas a pó servem para combater a febre; e a outra, a que cresce no meio do caminho, suaviza a garganta e acalma a tosse…
O rapaz escutava, abismado!...
- Aquela, ali, acalma as dores de barriga e as cólicas dos bébés …
O monge continuou a mostrar-lhe uma quantidade enorme de “ervas daninhas” que cresciam à volta deles e, segundo ele, todas tinham uma função.
- Todas estas plantas a que, com frequência, chamamos “ervas daninhas” contêm um tesouro em si próprias. Aquele que conhecer o seu segredo será capaz de curar ou aliviar muitos problemas…
Todas têm uma grande riqueza dentro de si; não podemos olhar para elas só pela aparência, mas pelo que têm e são na sua essência…
- É verdade que podem curar?...
- Sim, e eu penso que, no fundo, tu sabias e que foi essa a razão pela qual as não arrancaste…
Se quiseres ir para o mosteiro, poderás aprender a conhecê-las …
O rapaz aceitou e o pai ficou satisfeito, pois seria menos uma boca a sustentar.
Foi crescendo, aprendendo e tornou-se um jovem robusto e com inesgotáveis conhecimentos sobre plantas.
...Um velho monge dirigia-se, lentamente, para a aldeia, apreciando o ar doce e perfumado da manhã.
Assim que chegou às primeiras casas, dirigiu-se para uma especial.
Era uma loja onde se vendiam plantas para tratamento de doenças e que tinha uma tabuleta:
“Aqui não há ervas daninhas”.
De dentro saiu um homem jovem e sorridente e, com ele, uma miscelânea de diferentes aromas.
Olhando um para o outro sentaram-se depois, lado a lado, sem dizer palavra.
O monge imitou o jovem e colocou as mãos sobre os joelhos, com o olhar fixo à sua frente.
De vez em quando, olhava de lado, sorrateiramente…
De repente o jovem e o monge desataram a rir à gargalhada…
O essencial vê-se com o coração.
“Aqui não existem ervas daninhas”

Ilustr. Janet Duncan, "Through the weeds"
Contes philosophiques
Trad. e adap.: Maria M. Abreu

A educação de Gerónimo, cultura Apache

"Quando eu era uma criança, a minha mãe ensinou-me as lendas do nosso povo;
falou-me sobre o sol e o céu, a lua e as estrelas, as nuvens e as tempestades.
Também me ensinou a ajoelhar e a rezar ao Usen/Criador, pedindo-lhe força, saúde, sabedoria e protecção. 
Nunca rezávamos contra ninguém e se tivéssemos algum problema com alguém, teríamos de o resolver pessoalmente.
Ensinaram-nos que o Criador não dava importância às brigas insignificantes dos homens."
"Não tínhamos igrejas, nem organizações religiosas, nem o sabbath, nem feriados e, mesmo assim, rezávamos.
Umas vezes, reunia-se toda a tribo e cantávamos e rezávamos;
outras, apenas alguns, talvez dois ou três.
As canções eram informais e tinham poucas palavras.
Havia lugar para o improviso e para as manifestações individuais."
"Às vezes rezávamos em silêncio outras, rezava cada um em voz alta;
outras ainda, era um ancião quem rezava por todos nós.
Havia momentos em que um se levantava e nos falava dos deveres que tínhamos uns para com os outros e para com o Criador.
As nossas celebrações eram curtas."

Organização, tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Diogenes, uma lição de Dignidade

«Um dia, na cidade de Atenas, na Grécia, Diogenes comia um prato de lentilhas sentado na soleira de uma porta.
Não havia em toda a cidade alimento mais barato do que as lentilhas.
Dito de outra forma, era uma situação reveladora de uma condição de extrema pobreza.
Um ministro do imperador passou por ele e disse-lhe:
- “Pobre Diogenes! Se aprendesses a ser mais submisso e te dispusesses a lisonjear um pouco o imperador, não terias de engolir  tantas lentilhas”.
Diogenes parou de comer, levantou os olhos e fixando intensamente o seu rico interlocutor, respondeu:
- "Pobre de ti, meu irmão. Se aprendesses a consumir um pouco de lentilhas, não terias necessidade de ser submisso e de tanto bajular o imperador”.»

Ilustação: La scuola di Atena 
Contes Philosophiques
Trad/adapt.: Maria M. Abreu

Siddharta Gautama (Buda), sobre a Verdade

«Um dia, o grande Gautama levou todos os seus discípulos cegos a conhecer um elefante.
Nunca nenhum o tinha visto!
Então todos, simultaneamente, tiveram a oportunidade de lhe tocar e de constatar, através dos seus próprios sentidos, qual era a sua forma - a do elefante;
um deles segurou-lhe na cauda, o outro na tromba, outro montou-o e sentou-se sobre ele, outro passou as mãos pelos seus dentes e outro, ainda, tocou-lhe as pernas …
Interrogados mais tarde sobre as suas experiências individuais, responderam:
- O elefante é como uma cobra!... 
- É falso!... As cobras são pequenas e o elefante é como uma montanha!... 
- O elefante é duro!... Não, é mole, eu senti-o...~
Aconteceu, então, que o velho Sábio interveio:
-"Assim somos nós homens, os cegos, e o elefante é o Universo…
O não conhecimento de toda a Verdade, na sua totalidade, é que leva à contradição."»

Ilustr. Google

A Serpente e os Aldeões, conto indiano

«Perto de uma pequena aldeia da India vivia uma enorme serpente que aterrorizava os habitantes, atacando de morte aqueles que se aproximavam.
Exasperados, os aldeões juntaram-se e foram procurar um homem sábio para se queixarem da sua maldade.
Depois de os ouvir, o sábio foi ter com a serpente. Falou com ela durante muito tempo criticando o seu mau comportamento… "Que mal lhe tinham feito os aldeões?" … "Qual a causa de tantas mortes e violência gratuitas?"...
Ele foi de tal maneira convincente que a serpente ficou perturbada. Jurou emendar-se e manteve a sua palavra.
A partir desse dia não foi mais a mesma. Ela, aquele réptil outrora aterrador, transformou-se numa espécie de longo verme, esguio e flácido. Perdeu toda a sua força não ousando, mesmo, engolir a mais pequena das lesmas.
Os aldeões, que tinham a memória curta, vieram troçar da sua fraqueza. "De que lhe valia ter presas venenosas se não fazia uso delas"!...
Quanto às crianças, de cada vez que passavam por ela, atiravam-lhe pedras ou davam-lhe pontapés.
Ao fim de vários meses nesta situação, a serpente estava cansada de todos os golpes sofridos. 
Arrastou-se com dificuldade até casa do sábio e, por seu turno, expôs-lhe os seus problemas.
- Fiz tudo o que me pediste e tenho a impressão de já não ser eu mesma. Os aldeões já não me temem e perderam todo o respeito que tinham por mim. Desprezam-me, batem-me e tenho o coração a sangrar. O que me aconselhas?
- É muito simples o que tenho para te dizer, respondeu-lhe o sábio.
Proibi-te de atacares os aldeões de morte, quando não há razão para tal. Mas … alguma vez te proibi de sibilar?...»

Ilustr.Google
Graphomage
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Constituição da Nação "Iroquois", Responsabilidade Social


Numa altura em que tanto se fala de Alterações climáticas, do eminente perigo em que o planeta Terra se encontra na sequência das mesmas e no rescaldo da COP28 World Climate Action Summit realizada no Dubai, são inúmeras as questões pertinentes que ficam sem resposta.
Num mundo onde reina a hipocrisia e onde poucos são os que estão dispostos a prescindir das suas avultadíssimas fontes de rendimento e dos prazeres e privilégios que estas lhes proporcionam ( a começar pelo país anfitrião!), convinha visitar ou revisitar os ensinamentos das culturas autóctones, pré-coloniais, das diferentes regiões do mundo e fazer o exercício de retirar as ilações que se impõem.
Será que as competições automobilísticas, os rallies, todas as competições motorizadas foram postas em causa, enquanto forma de resposta aos problemas com os quais nos debatemos?
E quanto à propriedade privada, utilização e livre circulação de aviões e iates houve alguma abordagem? Foi objecto de medidas restritivas?
Se, como suspeito, estas e outras actividades de forte cariz poluente não tiverem sido questionadas e sujeitas a um apertado escrutínio, de nada valerão as declarações de intenções e nula, porque atrevida, será a autoridade moral para impor quaisquer restrições e medidas fiscais penalizadoras às populações em geral, aos cidadãos comuns, cujo impacto das suas actividades quotidianas em nada é comparável com as anteriormente referidas.

A corrida de Rãs

«Era uma vez uma corrida … de rãs.
O objectivo era chegar ao topo de uma grande torre.
Juntou-se muita gente para as ver e apoiar.
A corrida começou.
Com efeito, a maioria das pessoas não acreditava que fosse possível as rãs conseguirem chegar à meta e as vozes que se ouviam iam nesse sentido:
- “Que pena! Elas nunca conseguirão…”
As rãs começaram, progressivamente, a resignar-se excepto uma que continuou a subir enquanto as pessoas iam gritando:
- “Que pena … elas não vão conseguir ...  Nunca lá chegarão! …”
E as rãs foram-se dando por vencidas salvo uma, a mesma que teimava em não desistir, continuando a subir.
Por fim desistiram todas menos aquela que, só e com um enorme esforço, conseguiu alcançar o topo da corrida.
Abismadas, as outras quiseram saber como é que ela tinha conseguido terminar a prova.
Houve mesmo uma que, curiosa, se aproximou para lhe perguntar como o tinha feito e, para sua grande surpresa veio a descobrir que … a vencedora era surda!...»

Ilustr. Tree frog silk painting by Tammy Vaughan
Contes philosophiques
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

A Ponte de Praga

  «Era uma vez, na cidade de Cracóvia, um velho compreensivo e solidário que se chamava Izy.
Durante várias noites Izy sonhou que viajava até Praga e que chegava até uma ponte, sobre um rio.
Sonhou também que, de um lado do rio e debaixo da ponte se encontrava uma árvore de grande porte. E sonhou que cavava um buraco ao lado da árvore, e de lá saía um tesouro que lhe traria bem-estar e tranquilidade para o resto da sua vida.
Ao principio, não lhe deu importância.
Mas, como o sonho se repetiu durante várias semanas, interpretou o facto como sendo uma mensagem e decidiu que não podia fazer "ouvidos de mercador" a esta informação, que lhe chegava de Deus, ou do além, enquanto dormia.
Assim, fiel à sua intuição, carregou a sua mula para uma grande viagem e partiu em direcção a Praga.
Depois de seis dias de marcha, o velhinho chegou a Praga e dedicou-se à procura da ponte sobre o rio, fora da cidade.
Como não havia muitos rios, nem muitas pontes encontrou, rapidamente, o lugar que procurava. Era em tudo semelhante ao seu sonho: o rio, a ponte e, numa das margens do rio, a árvore sob a qual deveria cavar.
Havia, apenas, um detalhe que não tinha aparecido no seu sonho: a ponte estava guardada, noite e dia, por um soldado da guarda imperial.
Izy não ousou cavar enquanto o soldado lá estava e, por isso, decidiu acampar perto da ponte e esperar.
Na segunda noite, o soldado começou a desconfiar deste homem que acampava perto da ponte, e aproximou-se para o interrogar.
O velho Izy não viu razões para lhe mentir.
Ele tinha vindo de uma cidade tão longínqua porque tinha sonhado que, em Praga, havia um tesouro enterrado. 
O soldado desatou a rir, à gargalhada.
- "O senhor fez uma grande viagem ao disparate - disse ele - Há três anos que sonho todas as noites que, na cidade de Cracóvia, há um tesouro enterrado sob a cozinha de um velho louco chamado Izy. Ah,ah,ah!... O senhor acha que eu deveria ir a Cracóvia procurar esse Izy e cavar sob a sua cozinha?".
Izy agradeceu amavelmente ao soldado e voltou para casa.
Ao chegar, cavou um buraco na sua cozinha e encontrou o tesouro que sempre lá tinha estado enterrado.»

Este conto chama à atenção para o facto de que, com alguma frequência, a felicidade a que aspiramos está bem perto de nós; precisamos, no entanto, de algo que nos abra os olhos, de uma espécie de viagem iniciática, para que nos possamos aperceber e, eventualmente, reconhecer.

CONTES de SAGESSE du monde entier
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Estratégia de Mestre

"Um jovem monge debatia-se com um sério problema:
era preciso reparar o telhado do mosteiro mas não havia meios para o fazer, uma vez que a riqueza deste templo se resumia ao amor e compreensão que aí reinavam.
Sem saber o que fazer sentou-se e pensou no velho monge que tinha sido seu mestre; ele, sim, saberia como resolver o problema!...
Enquanto permanecia em silêncio surgiu-lhe, de repente, uma ideia. Pegou num carrinho de mão e partiu em direcção à aldeia.
Antes de partir informou os outros monges:
- Vou à aldeia procurar uma solução para reparar o telhado.
- Como? Os aldeões não são ricos, não poderão dar-te dinheiro …
O jovem monge sorriu e partiu. 
Quando chegou à entrada da aldeia dirigiu-se à primeira casa.
- Bom dia, o meu mestre disse-me que aqui encontraria sempre ajuda …
O aldeão inclinou-se, pegou na taça do monge e encheu-a de arroz. Este, por sua vez, pegou na taça e verteu-a para dentro do carrinho-de-mão.
E assim prosseguiu, indo de casa em casa. 
A bondade do seu velho mestre estava na memória de todas estas pessoas e cada uma delas contribuiu com uma taça de arroz.
Em seguida foi para uma outra aldeia e fez o mesmo.
A estratégia foi tão bem sucedida que, por fim, o carrinho ficou cheio de arroz.
Depois foi, ainda, a uma outra aldeia próxima, vendeu uma parte do arroz e ofereceu o que sobrou aos pobres sem abrigo.
E assim, com o dinheiro que ganhou na venda do arroz pôde mandar reparar o telhado do mosteiro.
Mais tarde sentou-se em frente ao mosteiro a sorrir, sentindo a presença do seu velho mestre."

Contes Philosophiques
Trad/Adaptação: Maria M. Abreu

Olivier Clerc, Sementes de Sabedoria


A propósito da função dos contos e afins:

«(...)uma vez que lhe é impossível transportar uma floresta, poderá trazer consigo um saco cheio de sementes.
Os símbolos, metáforas e analogias são isso mesmo: 
resumos compactos, cheios de sabedoria, que pode plantar e fazer crescer no seu jardim interior...»

UBUNTU

Um antropólogo propôs um jogo a um grupo de crianças de uma tribo africana.
Colocou um cesto cheio de fruta junto de uma árvore e disse às crianças que o primeiro a encontrá-lo ficaria com todos os frutos. 
Quando lhes deu sinal para correrem, as crianças deram as mãos umas às outras e correram juntas, sentando-se depois a comer a fruta. 
Ao perguntar-lhes porque tinham corrido assim quando, afinal, apenas um poderia ter ganho e ficado com todos os frutos só para si, eles responderam:

"UBUNTU, como pode cada um de nós ser feliz, se todos os outros estiverem tristes?"

'UBUNTU', na cultura Xhosa significa: "Eu sou, porque nós somos" (eu sou, existo, identifico-me enquanto parte de um Todo).

Tradução e adaptação: Maria M.Abreu

Salvar é a minha natureza

« Dois monges estavam a lavar as suas tigelas à beira de um rio quando repararam que um escorpião se estava a afogar.
Um dos monges, imediatamente, pegou nele e colocou-o na margem.
Durante este processo foi picado.
Continuou a lavar a sua tigela e, de novo, o escorpião caíu ao rio.
O monge voltou a salvar o escorpião e foi, novamente, picado.
O outro monge perguntou-lhe:
- Amigo, porque continuas a salvar o escorpião quando sabes que a sua natureza é picar?
- Porque - respondeu o monge - salvar, é a minha natureza.»

Trad. e adaptação: Maria M. Abreu 

O contributo do Colibri

« Um dia, houve um enorme incêndio na floresta.
Aterrorizados, todos os animais observavam, impotentes, este desastre.
Apenas o pequeno colibri, tão frágil quanto determinado, tomou a iniciativa de ir procurar água e, transportando-a no seu bico, lançava pequenas gotas sobre o fogo repetindo, incansavelmente, a tarefa que se tinha proposto.
Ao fim de algum tempo o tatu, irritado com esta actividade que, a seus olhos, era inútil ,disse-lhe:
- Colibri! Não achas que estás a ser tonto? Será que acreditas ser capaz de apagar o fogo com essas gotas de água?
- Eu sei, respondeu o colibri, mas ao menos faço o que posso.
Contribuo com a minha parte.»

Ilustração: Google

Os Três Crivos

« Um dia, ao sair do alpendre onde tinha estado a conversar com um grupo de jovens, um velho sábio, a quem chamaremos “Sócrates” em homenagem ao bem conhecido filósofo, encontrou-se frente a um homem que conhecia e que lhe disse, em tom confidencial:
- Escuta, Sócrates, entre os teus auditores há um jovem pouco recomendável, indigno da tua confiança. Quando te fizer a descrição dos seus actos, penso que o banirás do teu grupo.
- Estou pronto a escutar-te – respondeu Sócrates – e a tomar as medidas que forem necessárias. Mas primeiro deixa-me perceber melhor o que estás prestes a contar-me.
Fizeste passar as tuas palavras através dos três crivos?
- Os três crivos, o que é isso? - perguntou o homem
- O primeiro crivo, é o da Verdade.
Tens a certeza de que o que vais contar-me é verdadeiro e tem fundamento? Verificaste ou observaste com os teus próprios olhos?
- Para dizer a verdade – respondeu o homem, depois de um momento de hesitação – ouvi contar, mas não confirmei.
- A prova do primeiro crivo não foi bem sucedida – disse Sócrates – passemos ao segundo.
O crivo da Bondade.
Vais contar-me algo de bom ou positivo sobre esse homem?
- Pelo contrário – respondeu – ia falar-te mal dele.
- Sendo assim, as tuas palavras também não passam a prova do segundo crivo – diz Sócrates – vejamos o último, o crivo da Utilidade.
Este homem será beneficiado pelo facto de eu o excluir do círculo dos meus interlocutores? 
Não será mais útil que ele fique comigo e beneficie dos meus ensinamentos, a fim de melhorar?
- Creio que tens razão – respondeu o homem – Se bem compreendi, cada vez que eu tiver vontade de contar algo sobre alguém, devo fazer passar as minhas palavras através dos três crivos?
- Compreendeste perfeitamente – diz Sócrates
- Basta não passar em um só dos três crivos para deveres renunciar. Será melhor.»

metafora.ch
Trad. e adaptação: Maria M. Abreu

A Taça de Chá

« Nan-in, um mestre japonês do séc.XIX recebeu, um dia, a visita de um professor universitário americano interessado em obter mais informações sobre a filosofia Zen.
Enquanto Nan-In preparava silenciosamente o chá o professor entretinha-se a dissertar sobre os seus próprios pontos de vista filosóficos. 
Assim que o chá ficou pronto, Nan-in começou a verter, muito suavemente, a bebida a ferver na taça do seu visitante. 
O professor não parava de falar. E Nan-In continuou a verter o chá até que a taça transbordou. 
Alarmado ao ver como a bebida se espalhava pela mesa, arruinando a cerimónia do chá, o professor exclamou:
- Mas, a taça está cheia!… Não conterá sequer uma única gota a mais!
Tranquilamente Nan-in respondeu:
- O professor é como esta taça, já está cheio das suas próprias opiniões e especulações.
Como poderei falar-lhe do Zen se ainda não começou por se esvaziar a si próprio? »

Philosophie et Spiritualité
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Obcecado

« Dois monges em viagem chegaram à beira de um rio, onde encontraram uma mulher jovem.
Receosa da corrente, ela pediu-lhes se a podiam transportar para o outro lado.
Um dos monges hesitou, mas o outro rapidamente lhe pegou e a colocou em cima dos seus ombros, atravessou o rio e colocou-a na outra margem. Ela agradeceu-lhe e partiu.
Continuando a sua viagem, o monge hesitante estava pensativo e preocupado. Incapaz de prolongar o seu silêncio, disse:
- Irmão, o nosso treino espiritual ensina-nos a evitar qualquer contacto com as mulheres, mas tu pegaste nesta e transportaste-a aos teus ombros!
-  Irmão - respondeu o outro monge - eu levei-a para a outra margem, de facto, mas tu continuas a carregá-la contigo...»

Ilustr. "Chinese wise man" by Chris Motta
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Os Três Anéis

« Havia um sultão que tinha como conselheiro um velho judeu muito sábio.
Certos cortesãos, ciumentos, juraram fazer tudo para o afastar e sugeriram ao sultão perguntar-lhe qual era a mais certa, de entre as três religiões resultantes da linhagem de Abraão: se a judaica, a cristã ou a muçulmana.
Independentemente da resposta do conselheiro, pensavam, poderia sempre ser acusado de deslealdade ou de duplicidade e enviado para o exílio.
Depois de ter sido interrogado, o conselheiro disse ao sultão:
- Para responder à sua questão, tenho de lhe contar uma história:
"Em tempos houve um rei que possuía um anel, emblema do seu poder e sabedoria, que tinha recebido do seu pai e que se transmitia de geração em geração desde a noite dos tempos.
Na parte interior do anel estava gravada uma Fórmula Sagrada, que escondia o Segredo da Vida assim como a chave para decifrar esta fórmula, em letras minúsculas.
O rei tinha três filhos a quem amava igualmente.
Ao aproximar-se o momento da sucessão, ele não foi capaz de decidir a qual transmitir o anel.
Pensou, assim, levar o seu anel a um ourives competente e mandá-lo fundir pedindo-lhe que fizesse três anéis o mais idênticos possível, entre si.
No primeiro, mandou gravar a Fórmula Sagrada com apenas uma parte da chave de interpretação, em letras minúsculas.
No segundo mandou, igualmente, gravar a Fórmula acompanhada de outra parte da mesma chave de interpretação.
No terceiro, enfim, mandou inscrever a Fórmula e a parte restante do código.
Assim, pensava ele, os seus filhos seriam obrigados a trabalhar em conjunto, no caso de quererem tirar pleno partido da Fórmula Sagrada pois, para isso, seria necessário recorrer à totalidade da chave de interpretação, o código.
Antes de morrer distribuiu secretamente os anéis por cada um dos seus filhos.
Chegado o momento da escolha do novo monarca cada um dos três príncipes mostrou o seu anel para justificar o seu direito à sucessão, convencido de que estava de posse do original. 
Nem mesmo os maiores sábios conseguiram resolver o enigma de saber quem detinha o anel original.
Cada um dos príncipes estabeleceu, então, o seu próprio reino convencido de que era o herdeiro legítimo do seu pai e de que possuía a verdadeira chave de interpretação da Formula Sagrada.
E durante gerações os descendentes dos três irmãos defenderam acaloradamente, por vezes com recurso às armas, as suas convicções e os seus reinos.
Até hoje ninguém conseguiu que chegassem a um consenso e se reconciliassem."

- Esta minha história – disse o astucioso conselheiro ao sultão – é a resposta à sua questão.
O sultão inclinou-se diante da sabedoria do velho judeu, nomeou-o  grão-vizir e enviou para o exílio os cortesãos conspiradores.»

Ilustração Google 
metaphora.ch 
Trad. e adapt.Maria M. Abreu

Os Três Filhos, Guiné-Conacri

Apreciadora dos contos tradicionais - existentes em todas as culturas -  enquanto veículos de transmissão de conhecimentos e, sobretudo, de sabedoria entre gerações (era essa a sua função inicialmente, quando prevalecia a tradição oral) pareceu-me uma boa ideia traduzir e partilhar este pequeníssimo exemplar que faz a apologia da verdade como virtude.


« O Reino de Sabou (pequeno reino da Guiné) tinha um poderoso chefe de nome Moro.
Moro, para além de ser um chefe poderoso era, também, o detentor do ceptro de Viziok, uma vara mágica que lhe permitia controlar as tempestades. 
Um dia Moro, que sentia aproximar-se o fim dos seus dias, chamou os filhos a fim de lhes falar:
- Ouçam, filhos! Sinto-me enfraquecido, sem forças e chegou a hora de o mais corajoso de entre vós me substituir.
Entretanto, para que eu escolha o meu sucessor, preciso que cada um de vós me conte aquela que consideram tenha sido a vossa mais fantástica façanha. 
O primeiro dos seus filhos tomou a palavra e disse:
- Pai, recordas-te do momento em que os invasores atacaram o nosso reino? Eu, sozinho, combati-os e derrotei-os tendo como única arma as minhas mãos, apesar de eles serem numerosos e estarem fortemente armados. 
Depois falou o segundo filho:
- Pai, lembras-te quando os leões da grande floresta atacaram o nosso povo? 
Sozinho, tive a ousadia de os combater e de os matar tendo como única arma os meus punhos. 
Por fim, falou o terceiro filho de Moro:
- É verdade que fomos atacados por invasores e por leões.
Quanto a mim, não os combati sozinho nem com as minhas mãos.
Peguei nas minhas melhores armas e chamei o exército, o que permitiu vencer os leões e afastar os nossos agressores.
O velho chefe, depois de ter ouvido os seus três filhos, refletiu durante muito tempo e chegou à conclusão de que o filho mais corajoso era aquele que tinha dito a verdade, o seu terceiro filho. 
Moro chamou-o e disse-lhe:
- Tu disseste a verdade e és, por isso, o mais corajoso.
Entrego-te o ceptro de Viziok que te permitirá chefiar o reino de Sabou quando eu partir.
Os seus dois outros filhos aprenderam, à sua custa, que dizer a verdade é, geralmente, o acto mais corajoso que existe neste mundo.»

Dominique Baumont - Afrique 
Ilustr. Michel Sovogui (Guiné Conacry) 
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu