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A educação de Gerónimo, cultura Apache

"Quando eu era uma criança, a minha mãe ensinou-me as lendas do nosso povo;
falou-me sobre o sol e o céu, a lua e as estrelas, as nuvens e as tempestades.
Também me ensinou a ajoelhar e a rezar ao Usen/Criador, pedindo-lhe força, saúde, sabedoria e protecção. 
Nunca rezávamos contra ninguém e se tivéssemos algum problema com alguém, teríamos de o resolver pessoalmente.
Ensinaram-nos que o Criador não dava importância às brigas insignificantes dos homens."
"Não tínhamos igrejas, nem organizações religiosas, nem o sabbath, nem feriados e, mesmo assim, rezávamos.
Umas vezes, reunia-se toda a tribo e cantávamos e rezávamos;
outras, apenas alguns, talvez dois ou três.
As canções eram informais e tinham poucas palavras.
Havia lugar para o improviso e para as manifestações individuais."
"Às vezes rezávamos em silêncio outras, rezava cada um em voz alta;
outras ainda, era um ancião quem rezava por todos nós.
Havia momentos em que um se levantava e nos falava dos deveres que tínhamos uns para com os outros e para com o Criador.
As nossas celebrações eram curtas."

Organização, tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Os Três Anéis

« Havia um sultão que tinha como conselheiro um velho judeu muito sábio.
Certos cortesãos, ciumentos, juraram fazer tudo para o afastar e sugeriram ao sultão perguntar-lhe qual era a mais certa, de entre as três religiões resultantes da linhagem de Abraão: se a judaica, a cristã ou a muçulmana.
Independentemente da resposta do conselheiro, pensavam, poderia sempre ser acusado de deslealdade ou de duplicidade e enviado para o exílio.
Depois de ter sido interrogado, o conselheiro disse ao sultão:
- Para responder à sua questão, tenho de lhe contar uma história:
"Em tempos houve um rei que possuía um anel, emblema do seu poder e sabedoria, que tinha recebido do seu pai e que se transmitia de geração em geração desde a noite dos tempos.
Na parte interior do anel estava gravada uma Fórmula Sagrada, que escondia o Segredo da Vida assim como a chave para decifrar esta fórmula, em letras minúsculas.
O rei tinha três filhos a quem amava igualmente.
Ao aproximar-se o momento da sucessão, ele não foi capaz de decidir a qual transmitir o anel.
Pensou, assim, levar o seu anel a um ourives competente e mandá-lo fundir pedindo-lhe que fizesse três anéis o mais idênticos possível, entre si.
No primeiro, mandou gravar a Fórmula Sagrada com apenas uma parte da chave de interpretação, em letras minúsculas.
No segundo mandou, igualmente, gravar a Fórmula acompanhada de outra parte da mesma chave de interpretação.
No terceiro, enfim, mandou inscrever a Fórmula e a parte restante do código.
Assim, pensava ele, os seus filhos seriam obrigados a trabalhar em conjunto, no caso de quererem tirar pleno partido da Fórmula Sagrada pois, para isso, seria necessário recorrer à totalidade da chave de interpretação, o código.
Antes de morrer distribuiu secretamente os anéis por cada um dos seus filhos.
Chegado o momento da escolha do novo monarca cada um dos três príncipes mostrou o seu anel para justificar o seu direito à sucessão, convencido de que estava de posse do original. 
Nem mesmo os maiores sábios conseguiram resolver o enigma de saber quem detinha o anel original.
Cada um dos príncipes estabeleceu, então, o seu próprio reino convencido de que era o herdeiro legítimo do seu pai e de que possuía a verdadeira chave de interpretação da Formula Sagrada.
E durante gerações os descendentes dos três irmãos defenderam acaloradamente, por vezes com recurso às armas, as suas convicções e os seus reinos.
Até hoje ninguém conseguiu que chegassem a um consenso e se reconciliassem."

- Esta minha história – disse o astucioso conselheiro ao sultão – é a resposta à sua questão.
O sultão inclinou-se diante da sabedoria do velho judeu, nomeou-o  grão-vizir e enviou para o exílio os cortesãos conspiradores.»

Ilustração Google 
metaphora.ch 
Trad. e adapt.Maria M. Abreu

Espiritualidade versus Religião, a demanda

Nascida, criada e educada no seio de uma família católica, apostólica, romana, orientação esta complementada com um internamento num colégio gerido por uma ordem religiosa, as Salesianas, acabou por acontecer comigo aquilo que, penso, já seria de esperar por parte de qualquer ser humano inquisitivo: 
"degenerei", afastei-me do redil em que me encontrava, pela simples razão de não conseguir encontrar respostas plausíveis para as múltiplas questões que inundavam os meus pensamentos ...
Virou-se o feitiço contra o feiticeiro!...
Queria mais, queria perceber, precisava de compreender e o argumento que me era dado e repetido até à exaustão, o da necessidade de ter Fé, uma das 3 virtudes teologais que transformava em eleitos aqueles que por ela eram contemplados, não servia de resposta para mim e muito menos seria o principio e o fim do que era veiculado como mistério.
Nunca entendi nem consegui interiorizar a noção de "pecado" e muito menos a de "pecado original" lá, onde não consegui nunca descortinar o mesmo.

Entretanto, enquanto mãe, sobretudo com o meu segundo filho, vi-me confrontada com um sério dilema:
o que fazer, que orientação dar em termos de cultivar, alimentando, uma dimensão espiritual que sempre considerei ser imprescindível ao ser humano, quando eu própria estava cada vez mais céptica e afastada dos rituais papagueados, completamente descontextualizados, mecanizados de que enferma a  Igreja católica?!...
Depois de debater o problema com pessoas que considerava e considero bem formadas e nas quais confiava, acabei por fazer o que, na altura, me pareceu ser o mais acertado atendendo ao facto de, entretanto, não ter quaisquer outros termos de comparação: inscrevi-os na catequese com o intuito de lhes dar um instrumento, uma ferramenta que eles depois trabalhariam conforme entendessem, quando chegasse o momento de tomarem as suas decisões e escolhas individuais.
Acompanhei-os nestes rituais como os acompanhei nas suas diferentes etapas escolares, mas sem o fervor que se impunha à transmissão da mensagem, sem a convicção necessária ao despertar de outras convicções, só mesmo por obrigação, só mesmo com o objectivo de cumprir a missão que tinha imposto a mim própria.
E assim foram decorrendo os anos, com a catequese (sempre ministrada por pessoas muito bem intencionadas mas às quais faltava a preparação que entendo seria exigível nesta missão) e depois os escuteiros, no caso do meu filho mais novo.
Até que um dia, e na sequência do turbilhão de notícias e informações que vieram a público sobre o escândalo, a persistência e dimensão dos abusos de cariz sexual perpetrados por inúmeros membros do clero (ao longo de décadas e em várias regiões do planeta) o meu filho, cada vez mais sorumbático, desencantado e em estado de choque me abordou confessando-me, com algum desgosto, que não poderia continuar a ser escuteiro, uma vez que tinha perdido as suas convicções e que a crença e prática da religião católica eram uma condição sine qua non para os poder integrar !...
Ilustr. We are Humanity/FB
(Novembro 15, 2021)

Os novos fariseus

 
Apenas e só uma reflexão individual ...

Pode não parecer, mas é dolorosa esta constatação, por parte de quem bebeu desta cultura:

salvo raras excepções os católicos, tal como os fariseus, ao tempo, são os piores e mais corrosivos mensageiros da Palavra de Cristo, daquela que esteve na origem da instituição Igreja Católica...

É com uma certa revolta e algum desânimo que nos apercebemos do tempo perdido a tentar aprofundar e compreender o que carece de profundidade e não merece o exercício da compreensão ...

Ironicamente, é no seio da própria Igreja Católica, entre muitos dos homens e mulheres que a integram, que encontramos as raízes, as causas e a justificação para a sua inexorável, impiedosa decadência...
(Dezembro 16, 2021)

A mera reflexão veio, posteriormente, confirmar-se da forma mais aberrante que conheço:
a Pedofilia, o uso e abuso de crianças no seio da própria Igreja Católica!...