Com a idade que tenho, e cada vez mais consciente da efemeridade de tudo e de todos, a começar por mim própria, apeteceu-me partilhar este momento da minha vida pelo qual sinto alguma vaidade e um certo orgulho.
Aproveito, também, para dar a conhecer aos meus filhos os detalhes de que nunca lhes falei, uma vez que só agora refleti sobre o assunto, depois de ter encontrado material escrito da época.
Este concurso, promovido pela MPF (Mocidade Portuguesa Feminina), passou por várias etapas:
Com o objectivo de seleccionar a representante de cada distrito ou região, foram feitas provas das diferentes aptidões (valorizadas, à época*) de cada uma das candidatas, a nível concelhio.
Segundo me recordo, estas contemplavam não só uma prova escrita de cultura geral, como provas antecipadamente anunciadas, de forma a que cada uma de nós se preparasse e, chegado o dia marcado, fosse munida com tudo aquilo de que precisaria para fazer as suas provas, de acordo com o que tinha programado.
Abrangiam uma prova de culinária - preparação, apresentação e degustação da receita escolhida, por parte dos elementos do júri de selecção - incluindo a preparação e decoração de uma mesa para convidados.
Para além destas, e que me recorde, havia também uma prova de costura.
Quanto a mim, nestas provas práticas, preparei e apresentei uma tarte de requeijão que fez as delícias da Dra Dionísia Camões (será que também ela se deixou "conquistar pelo estômago"?), preparei uma mesa cheia de detalhes, que incluíram serviço de sobremesa (levado de casa) e flores, e cosi um botão.
Para não me alongar muito mais, seleccionadas as candidatas distritais, era chegado o momento de se reunirem, em Lisboa, com o objectivo de proceder à selecção final, a de quem seria a Rapariga Ideal 1973.
Aí (em Lisboa), e durante uma semana inteira, tivemos oportunidade de conviver e de nos conhecermos a todas - candidatas e mentoras da iniciativa - com a profundidade possível, pois seríamos nós próprias a eleger aquela que entendêssemos fosse a candidata que melhor representaria o ideal em causa.
Social e culturalmente muito enriquecedora, esteve preenchida com importantes debates temáticos, troca de ideias e exposição de pontos de vista, sobre temas tão diversos como expectativas de futuro, carreira profissional, família, sociedade, etc.
Neste tão intenso quanto intensivo programa estiveram também incluídas algumas visitas de carácter cultural e actividades lúdicas.
Nada foi feito nem deixado ao acaso: havia objectivos a cumprir e, como tal, houve uma prévia e meticulosa preparação!
Narrada e exposta a minha pequena vaidade, impõe-se a reflexão sobre os efeitos que estas iniciativas tiveram sobre cada uma de nós, em termos ideológicos e de concepção de vida e sociedade.
Será que saíram daqui umas fanáticas, retrógradas, incorrigíveis e intolerantes "fascistas"?...
Claro que não!
Em 1973 já se não pensava, vivia e defendia o que André Ventura pensa, defende e preconiza em termos de modelo de sociedade!!!
Desconheço o que vai no seu imaginário mas não corresponde, de todo, em termos de postura e valores estruturais ao que nós, os que estivemos integrados, vivemos.
Aliás, penso ser essa uma das razões pelas quais sinto, não só uma profunda e visceral antipatia como uma enorme aversão por ele, pelas mensagens explícitas e subliminares que veícula, pelo constante veneno que destila, pelo seu oportunismo, pela sua falta de carácter, pelas suas teatrais intervenções e, finalmente, por cometer o sacrilégio de "invocar o nome de Deus em vão", em proveito próprio e do partido que representa.
Mocidade Portuguesa
Pretendia abranger toda a juventude, escolar ou não, e destinava-se a «estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina e no culto do dever militar.»
Entretanto, depois disso, "muita água correu debaixo da ponte"
Tendo perdido o contacto de todas as outras apercebi-me, há uns anos atrás, de que uma delas integrava e continua a integrar a lista de militantes do PS.
Quanto a mim, reconheço que tive uma formação não só marxista como marxizante, no curso que escolhi.
O expoente máximo, entre vários, foi a cadeira de Sistemas Económicos (Economia Política) ministrada, ao tempo, pelo Prof. Doutor Avelãs Nunes e a sua obrigatória e inseparável sebenta intitulada "Sistemas Económicos".
Era uma cartilha!
Na primeira frequência tive 9 e na segunda, depois de compreendido o esquema, tive 15!!!
Senti-me obrigada a fazer aquilo que sempre detestei fazer: decorar!!!
Pertencendo à área das Ciências Sociais (que sempre adorei!), tive cadeiras interessantíssimas que me abriram os olhos e os horizontes, todas ministradas por professores formados no estrangeiro, predominantemente França e Bélgica (fugidos à obrigação de cumprirem o serviço militar).
Não sou nem me tornei marxista, mas devo muito à formação que me foi dada, em termos de métodos de análise, investigação e compreensão dos diferentes fenómenos socio-culturais.
Foi uma mais-valia que senti ao longo dos anos e da vida, tanto em termos de vida em sociedade como, mesmo, familiares.
* Em meu entender, sempre que se aborda um acontecimento ou facto histórico, é fundamental que se tenha a preocupação e a honestidade de os contextualizar (tempo, espaço e época) sob pena de desvirtuar a informação.
arquivos.rtp.pt/conteudos/mocidade-portuguesa-feminina-apresenta-o-concurso-rapariga-ideal/





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