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Nasreddin Hodja, A razão do mais forte

« Um dia, Nasreddin Hodja precisou de atravessar o mar de Mármara.
Apanhou um barco mas, mesmo a meio da travessia, levantou-se uma grande tempestade e o barco começou a afundar-se.
Todos, passageiros e membros da tripulação,  começaram a tirar a água da embarcação, na tentativa de manter o barco à tona.
Porém, entre o grupo encontrava-se um homem que, para consternação geral, tirava a água do mar para dentro do barco:
era o inigualável Nasreddin Hodja.
O capitão precipitou-se contra ele injuriando-o e acusando-o de os querer matar a todos mas, Nasreddin, não perdia a calma.
Explicou então ao capitão que estava a seguir, apenas, o conselho que a sua mãe, insistentemente, lhe repetia:
-“Colocar-se sempre do lado do mais forte”…»

Ilustr. Google
Tradução e adaptação: 
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodjah, O gramático

« O Mullah Nasreddin era um barqueiro e fazia o transporte de pessoas de uma margem do rio para a outra.
Um dia, enquanto transportava um conhecido gramático, este perguntou-lhe:
- O senhor sabe gramática?
- Não, de modo nenhum, respondeu o Mullah, sem hesitação.
- Então permita-me que lhe diga que perdeu metade da sua vida, replicou desdenhosamente o intelectual.
Um pouco mais tarde surgiu uma rajada de vento e o barco estava prestes a ser engolido pelas ondas. 
Pouco antes de naufragar o Mullah pergunta ao seu passageiro:
- O senhor sabe nadar?
- Não, respondeu este último, completamente aterrado.
- Pois bem, permita-me que lhe diga que pode considerar toda a sua vida como perdida! »

Contes philosophiques
Ilustr. Google
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodja, O pão nosso de cada dia

«Um dia chegaram uns polícias com a ordem de prender Nasreddin Hodja.
O sultão queria confrontá-lo com os mais eminentes sábios do país, que o acusavam de ser um herege.
Em sua defesa, Hodja pediu que fosse distribuído pelos sábios algo com que pudessem escrever.
Convidou-os, então, a responderem, por escrito, a uma única questão: “O que é um pão?”
Passado algum tempo leu as respostas à assembleia:
. para o jurista, o pão era um alimento;
.  para o físico, era um composto entre farinha e água;
.  para o teólogo, um dom dos céus;
. para o geógrafo, era uma pasta cozida;
. para o filósofo, dependia do que se entendesse por “pão”;
. para o médico, era uma substância nutritiva;
E, enfim, para o historiador, ninguém sabia o que era.
Virando-se, depois, para o sultão, disse-lhe:
-“Senhor, eles são incapazes de chegar a um acordo para definir algo de que se alimentam todos os dias.
Como poderiam eles concluir, de comum acordo, que sou um herege?”»

Ilustr. Google
Trad. e adaptação:
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodja, Insha'Allah

«Djeha-Hodja Nasreddin estava determinado a ser mais empreendedor.
Um dia, disse à sua mulher que ia arar o seu terreno junto ao rio e que estaria de regresso à hora de jantar.
Ela insistiu para que ele dissesse “Insha'Allah” (se Deus quiser).
E ele respondeu-lhe que era essa a sua intenção, quer Deus quisesse ou não.
Horrorizada, a sua mulher levantou os olhos ao céu e, tomando Allah como testemunha, pediu-lhe que perdoasse este perjúrio.
Djeha-Hodja Nasreddin pegou na sua charrua, atrelou os bois e, montando o seu burro, partiu para o campo.
Entretanto, depois de uma chuva repentina e breve, o rio transbordou.
O seu burro foi arrastado pela corrente, ficou preso e um dos bois partiu uma perna.
Djeha-Hodja Nasreddin não teve outra alternativa senão substituí-los.
A noite chegou, entretanto, e ele só tinha conseguido acabar metade do terreno.
Extenuado, ainda teve que esperar na obscuridade, durante muito tempo, que o nível da água baixasse de forma a poder fazer atravessia.
Chegou, finalmente, a casa por volta da meia-noite, encharcado e bem mais sábio…
Bateu à porta.
-“Quem é?”, perguntou a mulher.
-“Penso que sou eu, se Deus quiser…”»

Ilustr. Google
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu

Nasreddin Hodja, A túnica de Nasreddin

«Uma tarde em que Nasreddin regressava do seu trabalho nos campos, com a roupa suja e lamacenta, ouviu cantar e rir e apercebeu-se de que havia uma festa nas redondezas.
Ora, entre os seus, quando há uma festa toda a gente pode participar.
Então, Nasreddin empurrou a porta da casa a sorrir de felicidade pois, da cozinha, emanava um delicioso aroma a couscous.
Mas não conseguiu ir longe.
Estava de tal maneira mal vestido que foi apanhado sem qualquer cerimónia.
Irritado, correu até sua casa, vestiu a sua mais bela túnica e regressou à festa.
Desta vez, foi bem acolhido.
Instalaram-no confortavelmente e deram-lhe de comer e de beber.
Nasreddin pegou no couscous, no molho e no vinho e começou a derramá-los sobre a sua túnica, ao mesmo tempo que dizia:
- Come, túnica. Bebe, túnica.
Um homem que se encontrava sentado ao seu lado perguntou-lhe:
- Mas, o que estás a fazer? Estás louco?
- Não, amigo, respondeu-lhe Nasreddin.
- Na verdade, não fui eu o convidado, mas sim a minha túnica.» 😄

Ilustr.Google
Tradução e adaptação
Maria M. Abreu