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Eduardo Galeano, Medo de viver


 
Eduardo Galeano (03.09.1940 - 13.04.2015)
Legendado em Português

Um verdadeiro "compêndio" de verdades inconvenientes que, não só se vão perpetuando no tempo (de uma confrangedora actualidade!), como têm vindo a assumir contornos de uma cada vez mais perversa e despudorada normalização.

A bem da Nação, privatizem-se os serviços públicos

 
A bem do normal funcionamento do país, da desejável e necessária articulação entre os diferentes serviços, do estrito cumprimento dos propósitos que subjazem à sua criação e existência, da justificação dos salários e privilégios que auferem e que são pagos por todos nós, é urgente uma intervenção imediata junto destes serviços e respetivas repartições públicas que grassam pelo país, de forma a acabar com os abusos instalados na sequência dos anos da Pandemia.
Os atendimentos por marcação, em pleno horário normal de funcionamento são uma aberração, constituem um gravíssimo atentado à fluidez e produtividade nos diferentes serviços, demonstram um total desrespeito pelo público e cidadãos em geral e servem, apenas, os interesses daqueles que neles se refugiam.
Se o Estado não tem capacidade para disciplinar e avaliar os seus serviços e funcionários e exigir das suas prestações o que deveria ser expectável então, apetece dizer, melhor será entregar as suas competências a privados.
Talvez, assim, se evitasse o despautério de chegarmos a uma repartição pública, de província, completamente vazia e em pleno horário de funcionamento e sermos mandados embora porque, após a hora de almoço, só se fazem atendimentos por marcação.

Fartura e insatisfação

Tendo em consideração a natureza humana, infelizmente, só uma qualquer catástrofe vivida e sentida na primeira pessoa tem o poder transformador de, com alguma rapidez (dependendo do tipo e duração da catástrofe), alterar consciências e de reposicionar os valores e a escala de necessidades nos lugares que lhes competem e a que o bom senso conduz, invariavelmente.

Black Mirror, Nosedive

Cada vez mais dependentes das redes sociais e de tudo o que de negativo as mesmas comportam, as pessoas tendem a deixar-se seduzir pela necessidade que têm de se sentirem não só reconhecidas como aprovadas.

Esta necessidade leva-as a uma total sujeição aos termos impostos pelas mesmas (redes sociais) e que, neste caso, se traduzem em índices de popularidade que, numa escala de 0 a 5, obedecem a determinados critérios pré-estabelecidos.
Entretanto, pela sua volatilidade e falta de substância estes critérios acabam por se revelar não só muito discutíveis como, mesmo, de carácter duvidoso.

Estamos condenados a uma cada vez mais presente, ditatorial e invasiva vigilância tecnológica.
Simultaneamente, porque cada vez se lê menos e não há tempo nem vontade de cultivar, estimulando, a capacidade de reflexão individual, acabamos por ser mais vulneráveis e constituir alvos apetecíveis, de fácil manipulação por parte de quem, intencionalmente, explora e faz uso destas estudadas, alimentadas e reconhecidas fragilidades circunstanciais.

Pawel Kuczynski - As dores da Ucrânia

Pawel Kuczinski (Polish artist)
Página Ucraniana/FB

Relegada para 2º plano, em termos mediáticos, após o ataque do Hamas a Israel (07.10.2023), esta tem sido e continua a ser uma guerra sangrenta, provocada pela invasão da Ucrânia por parte da Rússia a 24.02.2022, com consequências também elas devastadoras para o povo Ucraniano.
Sem fim à vista, tem de continuar a merecer toda a nossa atenção, não só pelo facto de ser um conflito armado prolongado no tempo mas, sobretudo, atendendo às características tão oportunistas quanto maléficas e de um repugnante cinismo do invasor e inimigo em questão: Vladimir Putin.

Steve Cutts, Wake Up Call

« ...Today we live in a time when there is little to no understanding of how the goods we consume and take for granted came into being. Without this we lack the knowledge to understand the true costs of our consumption, and the power to take action. As a result we have become disconnected from Earth - the origin of our health, wealth and all of the 'things' we depend on.


Wake Up Call takes us on a fast-paced, animated glimpse of the true costs behind some of our most prized possessions - our electronic gadgets. Joining the dots between the stages of extraction, production, consumption and disposal, it reveals that, although our gadgets appear sleek and shiny, their appearance is misleading.»

Hannah Arendt, a Banalidade do Mal

«Tentar entender não é o mesmo que perdoar.»
 

«Esta desculpa típica dos Nazis torna claro que o maior mal do mundo é o mal perpetrado por "ninguém".

Males cometidos por homens sem qualquer motivo, sem convicções, sem qualquer razão maligna ou demoníaca, mas seres humanos que se recusam a ser pessoas.
E é a este fenómeno que chamei a "banalidade do mal"...»

« Desde Sócrates e Platão que se considerou o pensamento como o diálogo silencioso travado consigo próprio.
Ao recusar-se a ser uma "pessoa" Eichmann abdicou totalmente da característica que mais define o "homem" enquanto tal: a de ser capaz de pensar. 
Como tal ele tornou-se incapaz de fazer juízos morais.
Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem actos cruéis numa escala monumental jamais vista

« A manifestação do acto de pensar, não é conhecimento, mas a habilidade de distinguir o certo do errado, o belo do feio ... E eu tenho a esperança de que o acto de pensar dê às pessoas a força necessária para prevenir catástrofes, nesses raros momentos em que os navios estão a afundar.»

A fábula dos porcos assados

Um tratado sociológico sobre o "Sistema"

Uma das possíveis variações de uma velha história sobre a origem do assado é a seguinte:

« Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir dai, sempre que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque...
Até que descobriram um novo método.

Mas o que quero contar é o que aconteceu quando tentaram mudar o SISTEMA para implantar um novo. Havia algum tempo que as coisas não corriam lá muito bem:

por vezes, os animais ficavam queimados demais ou, então, parcialmente crus.

O processo preocupava muito a todos porque, se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram muito grandes - milhões eram os que se alimentavam de carne assada e também milhões os que se ocupavam com a tarefa de os assar. Portanto, o SISTEMA simplesmente não podia falhar.

Mas, curiosamente, quanto mais crescia a escala do processo, mais parecia falhar e maiores eram as perdas causadas.
Por causa das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas.

Já era um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA.

Congressos, seminários e conferências passaram a ser realizados anualmente para encontrar uma solução. Mas parece que não acertavam no aperfeiçoamento do mecanismo.
Assim, no ano seguinte, repetiam-se os congressos, seminários e conferências.

As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram atribuídas à indisciplina dos porcos (que não permaneciam onde deveriam), ou à inconstante natureza do fogo (tão difícil de controlar!), ou ainda às árvores (excessivamente verdes!), ou à humidade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas que não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas.

As causas eram, como se vê, difíceis de determinar - na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo.

Fora montada uma grande estrutura: maquinaria diversificada, indivíduos dedicados exclusivamente a acender o fogo - incendiadores, que eram também especializados (incendiadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc.; incendiadores nocturnos e diurnos - com especialização matutina e vespertina - incendiador de verão, de inverno etc).
Havia, também, especialistas em ventos - os anemotécnicos.
Havia um director-geral de assamento e alimentação assada, um director de técnicas ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores), um administrador geral de reflorestação, uma comissão de treino profissional em Porcologia, um instituto superior de cultura e técnicas alimentícias (ISCUTA) e o bureau orientador de reformas igneoperativas.

Tinha sido projectada e encontrava-se em plena actividade a criação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação - utilizando-se regiões de baixa humidade e onde os ventos não soprariam mais do que três horas seguidas.

Eram milhões de pessoas a trabalhar na preparação dos bosques que, rapidamente, seriam incendiados.
Havia especialistas estrangeiros que estudavam a importação das melhores árvores e sementes, o fogo mais potente, etc.
Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para os deixar sair, apenas, no momento oportuno.

Foram formados professores especializados na construção dessas instalações.
Pesquisadores trabalhavam para as universidades, para que os professores fossem especializados na construção das instalações para porcos.
Fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as universidades que, por sua vez, preparavam os professores especializados na construção das instalações para porcos, etc.
As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus e posicionar ventiladores gigantes em direcção oposta à do vento, de forma a direccionar o fogo.
Não é preciso dizer que poucos especialistas estavam de acordo entre si, e que cada um baseava as suas ideias em dados e pesquisas específicos.

Um dia, um incendiador categoria AB/SODM-VCH (ou seja, um acendedor de bosques especializado em sudoeste diurno, matutino, com bacharelato em verão chuvoso), chamado João Bom-Senso, resolveu dizer que o problema era muito fácil de ser resolvido: bastava, primeiro, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então numa armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor - e não as chamas! - assasse a carne.

Tendo sido informado sobre as ideias do funcionário, o director-geral de assamento mandou-o chamar ao seu gabinete e, depois de o ouvir pacientemente, disse-lhe:
-"Tudo o que o senhor disse está muito bem, mas não funciona na prática.
O que faria o senhor, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria?
Onde seria utilizado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?".
-"Não sei", disse João.
-"E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os desenhadores de instalações para porcos, com as suas máquinas purificadoras automáticas de ar?"
-"Não sei".
-"E os anemotécnicos que levaram anos a especializar-se no exterior, e cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou mandá-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos que, ano após ano, têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo? Heim?".
-"Não sei", repetiu João, encabulado.
-"O senhor percebe, agora, que a sua ideia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? 
O senhor não vê que se tudo fosse tão simples, os nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo atrás? 
O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas!
O que espera o senhor que eu faça com os quilómetros e quilómetros de bosques já preparados, cujas árvores não dão frutos e nem têm folhas para dar sombra? Vamos, diga-me?".
-"Não sei, não, senhor".
Diga-me, o senhor não considera que sejam personalidades científicas do mais extraordinário valor os nossos três engenheiros em Porcopirotecnia?".
-"Sim, parece que sim"...
-"Pois então. O simples facto de possuirmos valiosos engenheiros em Porcopirotecnia indica que o nosso SISTEMA é muito bom. O que faria eu com indivíduos tão importantes para o país?"
-"Não sei".
-"Vê? O senhor tem que trazer soluções para certos problemas específicos - por exemplo, como melhorar as anemotécnicas actualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (a nossa maior carência!) ou como construir instalações para porcos com mais de sete andares.
Temos que melhorar o SISTEMA, e não transformá-lo radicalmente, entende?
Ao senhor, falta-lhe sensatez!".
-"Realmente, eu estou perplexo!", respondeu João.
-"Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia por aí a dizer que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e complexo do que o senhor imagina.
Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua ideia ... isso poderia trazer problemas para o senhor, no seu cargo. Não por mim, o senhor entende... Eu digo isto para o seu próprio bem, porque o compreendo, entendo perfeitamente a sua posição, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo, não é?!...".
João Bom-Senso, coitado, não disse rigorosamente mais nada.
Sem se despedir, meio atordoado, meio assustado e de cabeça baixa saiu de fininho e nunca mais ninguém o viu.»

O texto original deste trabalho, em espanhol, circulou entre os alunos do curso de pós-graduação da Universidade de Piracicaba em 1981. A subtileza com que o autor satiriza um dos problemas dos nossos tempos fez com que imediatamente o texto chamasse a atenção de alunos e professores, convertendo-se em tema de conversas e debates.

Steve Cutts, A Brief Disagreement

 Na sua essência, e apesar do sofisticado e complexo desenvolvimento tecnológico alcançado pela Humanidade, o ser humano não evoluiu, nada aprendeu, permanecendo (numa perspectiva holística) no mesmo estádio de desenvolvimento moral e emocional dos seus antepassados pré-históricos!...

 De acordo com o pensamento refletido nesta brilhante mensagem de Steve Cutts, se tal não aconteceu no decurso da sua longa História, jamais acontecerá.
 Assim sendo, estará condenado à sua própria auto-destruição.

A desqualificação das maiorias


Steve Cutts Artwork

Steve Cutts, MAN

 Steve Cutts
 Animação que, apesar de ter sido realizada em 2012, se revela de uma enorme actualidade no que diz respeito à mensagem profunda que visa transmitir: a natureza depredadora da condição humana.

Rolando Boldrin, Sinto vergonha de mim

 "(...)Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço..."


"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus. o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."

Em tempos conturbados e incertos, no Brasil, um poema que se impõe, pela sua actualidade e pela excelência de quem o diz.
(Setembro, 20, 2018)

Os anos vão passando, mas continua a ser imenso o prazer com que ouço este senhor!...
 Entretanto parece que nada mudou no que diz respeito à actualidade das suas palavras, da mensagem que procura transmitir !... 
Uma realidade que, longe de estar confinada às fronteiras do Brasil, atravessa continentes e nos tem, também, atingido na forma de múltiplos e contínuos escândalos protagonizados por quem tem estado, supostamente, ao nosso serviço e a "trabalhar" em nome do interesse comum.