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Kahlil Gibran e o renascer da Primavera

 
" Sinto-me como uma semente no meio do inverno, sabendo que a primavera se aproxima.
O broto romperá a casca e a vida que ainda dorme em mim haverá de subir para a superfície, quando for chamada.
O silêncio é doloroso, mas é no silêncio que as coisas tomam forma, e existem momentos nas nossas vidas em que tudo que devemos fazer é esperar.
Dentro de cada um, no mais profundo do ser, está uma força que vê e escuta aquilo que não podemos ainda perceber.
Tudo o que somos hoje nasceu daquele silêncio de ontem.
Somos muito mais capazes do que pensamos.
Há momentos em que a única maneira de aprender é não tomar qualquer iniciativa, não fazer nada. Porque, mesmo nos momentos de total inação, esta nossa parte secreta está a trabalhar e a aprender. Quando o conhecimento oculto na alma se manifesta, ficamos surpreendidos connosco próprios, e os nossos pensamentos de inverno transformam-se em flores, que cantam canções nunca antes sonhadas.
A vida sempre nos dará mais do que achamos que merecemos."

Khalil Gibran

Vê mais longe a gaivota que voa mais alto

 
«(...) À medida que os dias corriam, Fernão dava consigo a pensar cada vez mais na Terra, de onde viera. 
Se lá tivesse sabido um décimo que fosse do que aprendera ali, como a vida teria tido outro significado!
Deixou-se ficar ali na areia a pensar se haveria lá alguma gaivota a tentar ultrapassar os seus limites, a tentar perceber que o voo era mais do que um meio para arrancar uma migalha de pão de um barco.
Talvez até houvesse alguma banida por ter falado a verdade perante o Bando.»

Bach, Richard
in Fernão Capelo Gaivota
Ilustr. Phil Jensen

Olivier Clerc, A rã que não sabia estava a ser cozinhada

 
Da alegoria da Caverna de Platão para Matrix, passando pelas fábulas de La Fontaine, o idioma simbólico é um meio privilegiado para induzir à reflexão e transmitir algumas ideias.

Olivier Clerc (escritor e filósofo), recorrendo à metáfora, nesta sua breve história, põe em evidência as funestas consequências de não termos consciência de que estamos a ser alvo de mudanças, que afectam não só a evolução social e o ambiente como, também, a nossa saúde e as nossas relações sociais e de convivência.

"Imagine uma panela cheia de água fria, na qual nada tranquilamente uma pequena rã. Um pequeno fogo debaixo da panela e a água aquece muito lentamente.
A pouco e pouco, lentamente, a água fica morna e a rã, achando isso bastante agradável, contínua a nadar.
A temperatura da água continua a subir ...
A água fica mais quente do que a rã gostaria. Começa a sentir-se um pouco cansada mas, não obstante, isso não a amedronta.
Entretanto a água está realmente quente e a rã começa a achar desagradável, mas está muito debilitada. Então aguenta e não faz nada ...
A temperatura contínua a subir até que a rã acaba, simplesmente, morta e cozida.
Se a mesma rã tivesse sido lançada directamente na água a 50graus, com um golpe de pernas teria saltado imediatamente da panela."

Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento, escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, nenhuma reacção, nem um pouco de oposição ou alguma revolta.
Se nós olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade durante as últimas décadas poderemos ver que estamos a sofrer uma lenta mudança na vida à qual nos vamos acostumando.
Uma quantidade de coisas que nos teriam feito horrorizar há 20, 30 ou 40 anos, foram a pouco e pouco banalizadas e hoje apenas perturbam levemente ou até deixam completamente indiferentes a maior parte das pessoas.
Em nome do progresso, da ciência e do lucro são efectuados ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza e à alegria de viver. 
Lenta, mas inexoravelmente, com a constante cumplicidade das vítimas, desavisadas e agora incapazes de se defenderem.
As previsões para o futuro, em vez de despertarem reacções e medidas preventivas, não fazem outra coisa que não seja preparar psicologicamente as pessoas para aceitarem algumas condições de vida decadentes, aliás dramáticas.
O martelar contínuo de informações dos média satura os cérebros que não podem distinguir mais as coisas ...
Quando eu falei pela primeira vez destas coisas, era para um amanhã...
Agora, é para hoje!!!
Conscientes ou cozinhados, precisamos de escolher!

Sendo assim, se você não estiver como a rã, já meio cozido, dê um golpe de pernas, antes que seja muito tarde...

Os Três Crivos

 

« Um dia, ao sair do alpendre onde tinha estado a conversar com um grupo de jovens, um velho sábio, a quem chamaremos “Sócrates” em homenagem ao bem conhecido filósofo, encontrou-se frente a um homem que conhecia e que lhe disse, em tom confidencial:
- Escuta, Sócrates, entre os teus auditores há um jovem pouco recomendável, indigno da tua confiança. Quando te fizer a descrição dos seus actos, penso que o banirás do teu grupo.
- Estou pronto a escutar-te – respondeu Sócrates – e a tomar as medidas que forem necessárias. Mas primeiro deixa-me perceber melhor o que estás prestes a contar-me.
Fizeste passar as tuas palavras através dos três crivos?
- Os três crivos, o que é isso? - perguntou o homem
- O primeiro crivo, é o da Verdade.
Tens a certeza de que o que vais contar-me é verdadeiro e tem fundamento? Verificaste ou observaste com os teus próprios olhos?
- Para dizer a verdade – respondeu o homem, depois de um momento de hesitação – ouvi contar, mas não confirmei.
- A prova do primeiro crivo não foi bem sucedida – disse Sócrates – passemos ao segundo.
O crivo da Bondade.
Vais contar-me algo de bom ou positivo sobre esse homem?
- Pelo contrário – respondeu – ia falar-te mal dele.
- Sendo assim, as tuas palavras também não passam a prova do segundo crivo – diz Sócrates – vejamos o último, o crivo da Utilidade.
Este homem será beneficiado pelo facto de eu o excluir do círculo dos meus interlocutores? 
Não será mais útil que ele fique comigo e beneficie dos meus ensinamentos, a fim de melhorar?
- Creio que tens razão – respondeu o homem – Se bem compreendi, cada vez que eu tiver vontade de contar algo sobre alguém, devo fazer passar as minhas palavras através dos três crivos?
- Compreendeste perfeitamente – diz Sócrates
- Basta não passar em um só dos três crivos para deveres renunciar. Será melhor. »

metafora.ch
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Hannah Arendt, a Banalidade do Mal

 

«Tentar entender não é o mesmo que perdoar.»

«Esta desculpa típica dos Nazis torna claro que o maior mal do mundo é o mal perpetrado por "ninguém".
Males cometidos por homens sem qualquer motivo, sem convicções, sem qualquer razão maligna ou demoníaca, mas seres humanos que se recusam a ser pessoas.
E é a este fenómeno que chamei a "banalidade do mal"...»

« Desde Sócrates e Platão que se considerou o pensamento como o diálogo silencioso travado consigo próprio.
Ao recusar-se a ser uma "pessoa" Eichmann abdicou totalmente da característica que mais define o "homem" enquanto tal: a de ser capaz de pensar. 
Como tal ele tornou-se incapaz de fazer juízos morais.
Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem actos cruéis numa escala monumental jamais vista

« A manifestação do acto de pensar, não é conhecimento, mas a habilidade de distinguir o certo do errado, o belo do feio ... E eu tenho a esperança de que o acto de pensar dê às pessoas a força necessária para prevenir catástrofes, nesses raros momentos em que os navios estão a afundar.»

A cada um o seu "Samsara"



 «(...) Que pai, que mestre poderia impedi-lo de viver a vida, de sujar-se com a vida, de carregar as suas próprias culpas, de beber a mais amarga bebida, de encontrar o seu próprio caminho?...»
Herman Hesse, Siddhartha

É um facto ... e um erro em que, penso, quase todos caímos!

O de tentar proteger os nossos filhos, sempre preocupados em lhes tentar retirar as pedras do caminho, aliviando o seu percurso, sempre com a esperança de evitar que cometam erros, se desviem do caminho (por nós sonhado) e que sofram "desnecessariamente", de acordo com o que a experiência acumulada nos ensinou ...

Sobretudo depois de termos passado por situações traumáticas no seio das nossas famílias originais, temendo a repetição dos factos com os quais tivemos de nos confrontar e quando o fazemos a solo e em ninguém mais nos podemos apoiar ...

A cada um o seu Samsara!... A  cada um o seu percurso ... Único, individual, irrepetível.

(06.09.22)