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Nassos Vakalis, Dinner for few

« "Jantar para Poucos" é uma representação alegórica da nossa sociedade.
Durante o jantar, "o sistema" alimenta os poucos que consomem todos os recursos, enquanto os restantes sobrevivem com as sobras.
Inevitavelmente, a luta pelo que resta leva a uma mudança catastrófica. Os frutos desta transição não se revela um sinal de esperança, mas antes a cópia fiel dos pais.»

« "Dinner For Few" is an allegorical depiction of our society.
During dinner, "the system" feeds the few who consume all the resources while the rest survive on scraps,
Inevitably, the struggle for what remains leads to catastrophic change.
The offspring of this transition turns out not to be a sign of hope, but the spitting image of the parents. »

Olivier Clerc, A rã que não sabia estava a ser cozinhada

 
Da alegoria da Caverna de Platão para Matrix, passando pelas fábulas de La Fontaine, o idioma simbólico é um meio privilegiado para induzir à reflexão e transmitir algumas ideias.

Olivier Clerc (escritor e filósofo), recorrendo à metáfora, nesta sua breve história, põe em evidência as funestas consequências de não termos consciência de que estamos a ser alvo de mudanças, que afectam não só a evolução social e o ambiente como, também, a nossa saúde e as nossas relações sociais e de convivência.

"Imagine uma panela cheia de água fria, na qual nada tranquilamente uma pequena rã. Um pequeno fogo debaixo da panela e a água aquece muito lentamente.
A pouco e pouco, lentamente, a água fica morna e a rã, achando isso bastante agradável, contínua a nadar.
A temperatura da água continua a subir ...
A água fica mais quente do que a rã gostaria. Começa a sentir-se um pouco cansada mas, não obstante, isso não a amedronta.
Entretanto a água está realmente quente e a rã começa a achar desagradável, mas está muito debilitada. Então aguenta e não faz nada ...
A temperatura contínua a subir até que a rã acaba, simplesmente, morta e cozida.
Se a mesma rã tivesse sido lançada directamente na água a 50graus, com um golpe de pernas teria saltado imediatamente da panela."

Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento, escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, nenhuma reacção, nem um pouco de oposição ou alguma revolta.
Se nós olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade durante as últimas décadas poderemos ver que estamos a sofrer uma lenta mudança na vida à qual nos vamos acostumando.
Uma quantidade de coisas que nos teriam feito horrorizar há 20, 30 ou 40 anos, foram a pouco e pouco banalizadas e hoje apenas perturbam levemente ou até deixam completamente indiferentes a maior parte das pessoas.
Em nome do progresso, da ciência e do lucro são efectuados ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza e à alegria de viver. 
Lenta, mas inexoravelmente, com a constante cumplicidade das vítimas, desavisadas e agora incapazes de se defenderem.
As previsões para o futuro, em vez de despertarem reacções e medidas preventivas, não fazem outra coisa que não seja preparar psicologicamente as pessoas para aceitarem algumas condições de vida decadentes, aliás dramáticas.
O martelar contínuo de informações dos média satura os cérebros que não podem distinguir mais as coisas ...
Quando eu falei pela primeira vez destas coisas, era para um amanhã...
Agora, é para hoje!!!
Conscientes ou cozinhados, precisamos de escolher!

Sendo assim, se você não estiver como a rã, já meio cozido, dê um golpe de pernas, antes que seja muito tarde...

Mouseland e alternativas eleitorais

« A fábula Mouseland - em português, Ratolândia - foi inicialmente contada por Clarence Gillis e mais tarde popularizada em discurso por Tommy Douglas, político canadiano.
A fábula expressava a ideia de que o sistema político canadiano estava viciado, pois oferecia aos eleitores um falso dilema: o da escolha entre dois únicos partidos, nenhum dos quais representava os interesses do povo.
Na fábula, os ratos (o povo canadiano) votavam nos gatos negros (Partido Progressivo Conservador) e, passado algum tempo, iam ficando decepcionados com as dificuldades que iam sentindo nas suas vidas. Depois votavam nos gatos brancos (Partido Liberal) e assim iam alternando entre os dois partidos, sem que sentissem qualquer diferença no seu dia-a-dia.
Até que um dos ratos tem a ideia de que os ratos deveriam formar o seu próprio governo...»
 

A fábula dos porcos assados

Um tratado sociológico sobre o "Sistema"

Uma das possíveis variações de uma velha história sobre a origem do assado é a seguinte:

« Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir dai, sempre que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque...
Até que descobriram um novo método.

Mas o que quero contar é o que aconteceu quando tentaram mudar o SISTEMA para implantar um novo. Havia algum tempo que as coisas não corriam lá muito bem:

por vezes, os animais ficavam queimados demais ou, então, parcialmente crus.

O processo preocupava muito a todos porque, se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram muito grandes - milhões eram os que se alimentavam de carne assada e também milhões os que se ocupavam com a tarefa de os assar. Portanto, o SISTEMA simplesmente não podia falhar.

Mas, curiosamente, quanto mais crescia a escala do processo, mais parecia falhar e maiores eram as perdas causadas.
Por causa das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas.

Já era um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA.

Congressos, seminários e conferências passaram a ser realizados anualmente para encontrar uma solução. Mas parece que não acertavam no aperfeiçoamento do mecanismo.
Assim, no ano seguinte, repetiam-se os congressos, seminários e conferências.

As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram atribuídas à indisciplina dos porcos (que não permaneciam onde deveriam), ou à inconstante natureza do fogo (tão difícil de controlar!), ou ainda às árvores (excessivamente verdes!), ou à humidade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas que não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas.

As causas eram, como se vê, difíceis de determinar - na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo.

Fora montada uma grande estrutura: maquinaria diversificada, indivíduos dedicados exclusivamente a acender o fogo - incendiadores, que eram também especializados (incendiadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc.; incendiadores nocturnos e diurnos - com especialização matutina e vespertina - incendiador de verão, de inverno etc).
Havia, também, especialistas em ventos - os anemotécnicos.
Havia um director-geral de assamento e alimentação assada, um director de técnicas ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores), um administrador geral de reflorestação, uma comissão de treino profissional em Porcologia, um instituto superior de cultura e técnicas alimentícias (ISCUTA) e o bureau orientador de reformas igneoperativas.

Tinha sido projectada e encontrava-se em plena actividade a criação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação - utilizando-se regiões de baixa humidade e onde os ventos não soprariam mais do que três horas seguidas.

Eram milhões de pessoas a trabalhar na preparação dos bosques que, rapidamente, seriam incendiados.
Havia especialistas estrangeiros que estudavam a importação das melhores árvores e sementes, o fogo mais potente, etc.
Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para os deixar sair, apenas, no momento oportuno.

Foram formados professores especializados na construção dessas instalações.
Pesquisadores trabalhavam para as universidades, para que os professores fossem especializados na construção das instalações para porcos.
Fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as universidades que, por sua vez, preparavam os professores especializados na construção das instalações para porcos, etc.
As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus e posicionar ventiladores gigantes em direcção oposta à do vento, de forma a direccionar o fogo.
Não é preciso dizer que poucos especialistas estavam de acordo entre si, e que cada um baseava as suas ideias em dados e pesquisas específicos.

Um dia, um incendiador categoria AB/SODM-VCH (ou seja, um acendedor de bosques especializado em sudoeste diurno, matutino, com bacharelato em verão chuvoso), chamado João Bom-Senso, resolveu dizer que o problema era muito fácil de ser resolvido: bastava, primeiro, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então numa armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor - e não as chamas! - assasse a carne.

Tendo sido informado sobre as ideias do funcionário, o director-geral de assamento mandou-o chamar ao seu gabinete e, depois de o ouvir pacientemente, disse-lhe:
-"Tudo o que o senhor disse está muito bem, mas não funciona na prática.
O que faria o senhor, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria?
Onde seria utilizado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?".
-"Não sei", disse João.
-"E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os desenhadores de instalações para porcos, com as suas máquinas purificadoras automáticas de ar?"
-"Não sei".
-"E os anemotécnicos que levaram anos a especializar-se no exterior, e cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou mandá-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos que, ano após ano, têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo? Heim?".
-"Não sei", repetiu João, encabulado.
-"O senhor percebe, agora, que a sua ideia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? 
O senhor não vê que se tudo fosse tão simples, os nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo atrás? 
O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas!
O que espera o senhor que eu faça com os quilómetros e quilómetros de bosques já preparados, cujas árvores não dão frutos e nem têm folhas para dar sombra? Vamos, diga-me?".
-"Não sei, não, senhor".
Diga-me, o senhor não considera que sejam personalidades científicas do mais extraordinário valor os nossos três engenheiros em Porcopirotecnia?".
-"Sim, parece que sim"...
-"Pois então. O simples facto de possuirmos valiosos engenheiros em Porcopirotecnia indica que o nosso SISTEMA é muito bom. O que faria eu com indivíduos tão importantes para o país?"
-"Não sei".
-"Vê? O senhor tem que trazer soluções para certos problemas específicos - por exemplo, como melhorar as anemotécnicas actualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (a nossa maior carência!) ou como construir instalações para porcos com mais de sete andares.
Temos que melhorar o SISTEMA, e não transformá-lo radicalmente, entende?
Ao senhor, falta-lhe sensatez!".
-"Realmente, eu estou perplexo!", respondeu João.
-"Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia por aí a dizer que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e complexo do que o senhor imagina.
Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua ideia ... isso poderia trazer problemas para o senhor, no seu cargo. Não por mim, o senhor entende... Eu digo isto para o seu próprio bem, porque o compreendo, entendo perfeitamente a sua posição, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo, não é?!...".
João Bom-Senso, coitado, não disse rigorosamente mais nada.
Sem se despedir, meio atordoado, meio assustado e de cabeça baixa saiu de fininho e nunca mais ninguém o viu.»

O texto original deste trabalho, em espanhol, circulou entre os alunos do curso de pós-graduação da Universidade de Piracicaba em 1981. A subtileza com que o autor satiriza um dos problemas dos nossos tempos fez com que imediatamente o texto chamasse a atenção de alunos e professores, convertendo-se em tema de conversas e debates.