Assunção de Responsabilidades, uma lição de vida

Sam Toft´s Artwork

Não sendo especialista na área, estou convencida de que nascemos todos com diferentes traços de personalidade, mais ou menos vincados, mas que outros haverá que, pelas mais diversas razões, educação incluída, são e devem ser cultivados, enquanto elementos estruturadores da vida em sociedade e da convivência pacífica a que esta nos apela.

Passo a explicar baseada numa experiência pessoal:
em 1966, tinha eu 9 anos, por razões circunstanciais e, obviamente, sem ter sido consultada , fui internada num colégio de irmãs Salesianas, o Colégio Maria Auxiliadora, na Namaacha, a 80 km de Lourenço Marques, onde os meus pais se encontravam.
Sofri e chorei baba e ranho de todo o tamanho, mas lá aguentei um ano e lá fiz a minha 4ª classe (exame incluído!).

O regime, lá dentro era, não rígido mas rigidíssimo, altamente disciplinado e disciplinador, a acrescentar o facto de a Madre Superiora ser Alemã.
Para além do currículo académico fazia também parte do projecto educativo, não só a formação religiosa, com catequese e missa e terço diários (eu tinha, apenas 9 anos!!!), como actividades de carácter lúdico e algumas tarefas domésticas diárias, antes de começarmos as aulas.
Felizmente calharam-me sempre tarefas que, apesar de monótonas e desnecessárias, eram de fácil realização: limpava, diariamente, o pó das cadeiras do anfiteatro e posteriormente fui colocada na capela onde acabei por fazer o mesmo.

Era um colégio amplo, enorme, e as raparigas estavam distribuídas por 2 enormes camaratas, de acordo com um só critério:
as que já eram menstruadas e as mais novas, ainda crianças!
Eu era das mais velhas da camarata das crianças.
Como tal, e integrando ainda o referenciado projecto educativo, fiquei responsável por uma menina mais nova (6 anos) em termos de vigilância do seu comportamento, cuidado com o uniforme e higiene dentro da camarata.

Passados tantos e tantos anos e depois de muita reflexão, penso ter sido este o ponto de partida para o processo de modelação de algumas características de personalidade que comigo se foram desenvolvendo.
O sentido de responsabilidade, a partilha e um feroz desenvolvimento do instinto maternal foram algumas delas...Mas não só!...

Houve um episódio que durante muito tempo, considerei ter sido completamente ridículo de tão desproporcional e para o qual olho, hoje, com bastante benevolência e uma outra compreensão ...
Tudo, tudo, na era de Trump e de fenómenos como o Chega e quejandos que proliferam pelo mundo inteiro com protagonistas que nos fazem questionar a nossa saúde mental!

Ora bem:
numa semana que era suposto ser de férias, mas em que fui obrigada a permanecer no colégio porque se aproximava a data do exame (nacional, 4º classe e a realizar numa escola pública), porque éramos poucas, para além dos estudos coube-nos a tarefa de pôr e tirar a única mesa que ocupávamos.
Acontece que, num desses dias, ao retirar os pratos do jantar, escorregou-me um prato da mão que acabou por cair ao chão e por se partir.
Todas as pessoas viram, fiquei aflita, peguei nos cacos e dirigi-me à irmã/madre responsável pelo refeitório que, muito simplesmente, me mandou para o gabinete da Madre Superiora com o objectivo de lhe relatar o sucedido.
A seguir ao jantar havia sempre um tempo de lazer e de jogos colectivos e depois era a hora de recolher às camaratas.
Nesse dia não me foi possível participar nas actividades rotineiras.
Entretanto e para meu grande "azar", a Madre Superiora tinha estado ocupada com uma visita importante para a Ordem durante todo o dia e prolongou a reunião noite adentro, fechada no seu gabinete.
Não me restou outra solução que não fosse a de esperar à sua porta, sentada na escadaria e com os cacos na mão durante um tempo que me pareceu infindável já que, entretanto, já todas as minhas colegas se tinham ido deitar, a maior parte das luzes se tinha apagado e o silêncio instalado era, apenas, quebrado pelas vozes vindas do gabinete.
Quando, por fim, a porta se abriu e a Madre Superiora apareceu na ombreira da porta dei um pulo, levantei-me já cheia de sono (tinha 9 anos!!!) e postei-me à sua frente ainda e sempre com os malditos cacos na mão, à espera do veredicto final...
Manifestamente surpreendida olhou para mim e para a prova do meu delito, sorriu, fez-me uma festa na cabeça, mandou-me deitar o que restava do prato no lixo e ir para a cama...


Na altura e durante muito tempo, até há alguns anos atrás, fiquei confusa entendendo que, para aquele desfecho e sem qualquer punição, tinha sido inglório o meu esforço de espera e o convívio e jogos que entretanto perdi...
Mas, quando já tardiamente comecei a perceber que neste mundo em que vivo, desde os políticos ao cidadão comum, é cada vez menor o número de pessoas que assume não só os seus erros como as responsabilidades que lhes são inerentes, foi como se tivesse tido um vislumbre, uma revelação de algo que me intrigou durante tanto tempo e tivesse percebido, finalmente, o significado profundo da minha experiência no Colégio Maria Auxiliadora, na Namaacha, em Moçambique.
Aprendi, desde cedo, a assumir a responsabilidade dos meus actos independentemente da sua valoração!

O Jogo e a personalidade


É impressionante como, através de um simples jogo, nos é possível ficar a conhecer a personalidade e o carácter daqueles com quem jogamos!...
Salvo raras, honrosas e estimulantes excepcões, a desilusão torna-se uma constante.

Pertencendo a uma geração pré-internet sou do tempo em que, nos momentos de ócio, jogávamos cartas, o monopólio, o Cluedo e afins.
Com o tempo, as responsabilidades e preocupações relacionadas com a família e o trabalho, fiz um grande interregno nesse tipo de actividades lúdicas.

Agora que estou muito mais livre, com o computador, internet e a múltipla oferta de jogos que existe, recuperei o prazer de jogar e empenho-me nos jogos que seleccionei (apenas três!) da mesma forma que me empenho em qualquer uma outra actividade que seja do meu interesse.

Tomarei como exemplo e referência o Word Blitz, um jogo de construção de palavras a partir de letras dispostas aleatoriamente no campo de jogo.
Quantas mais palavras conseguirmos encontrar mais pontos ganhamos.
É cronometrado e jogado contra amigos e adversários aleatórios. 
Acontece que, lamentavelmente, o jogo está concebido para o Português do Brasil (como quase toda a produção em língua Portuguesa na internet!!!), o que nos deixa em desvantagem pois eles têm toda uma panóplia de vocábulos que desconhecemos e ignoram muitos dos que fazem parte da língua mãe.
De qualquer maneira, atendendo à ausência de recursos na língua original, lá tenho vindo a fazer esforços e a procurar adaptar-me, depois de uma inicial fase de revolta e de sugestões não atendidas.

Voltando ao tema inicial, esta tem sido uma experiência interessante pois, para além de me ficar a conhecer melhor a mim própria, também me tem permitido conhecer os meus adversários, a sua forma de ser e de estar perante as diferentes situações de vitória e de derrota.
Como em todas as situações na vida, a experiência é um factor importante, mesmo fundamental, e é preciso persistir para se conseguir algo.
É através do permanente exercício de "tentativa e erro" que vamos aprendendo e melhorando as nossas performances e que a inteligência nos livre de termos medo dos desafios.

Entre os jogadores, vamos encontrando de tudo, e muito embora não os conhecendo na vida real, vamos  ficando a percepcionar, e a admirar ou desprezar, não só a forma como interagem como a sua postura no decurso do jogo e face às vitórias e/ou derrotas que vão sofrendo. 

Existem aqueles (uma minoria!!!) cujo esforço, humildade e perseverança nos animam, incentivam, se tornam dignos do nosso respeito e consideração ao ponto de ficarmos com receio de os penalizar e de termos vontade de os conhecer e, quem sabe, abraçar, e depois há os outros, os arrogantes, cheios de si próprios, aqueles que não suportando uma derrota, não olham a meios para atingir os seus fins.
Entretanto, de entre estes últimos há os que, estando a perder sistematicamente, mal conseguem uma vitória se retiram de cena e da concorrência e os que abusam da supremacia que têm no jogo e que, estrategicamente evitados, persistem em se impor com o objectivo de acumular pontos face à desvantagem dos seus oponentes.

O jogo é, assim, uma actividade que permite avaliar, não só as capacidades de cada um, em determinada área como, também, a sua forma de ser e estar na vida real, constituíndo um terreno fértil de reprodução do perfil comportamental de cada um.

Com o que tenho vindo a constatar e se eu fosse empregadora, para além da avaliação das competências específicas, sentir-me-ia tentada a incluir, no processo final de selecção de candidatos, um desafio/jogo que envolvesse, simultaneamente, não só o factor competição como a estratégia/estratégias utilizadas na persecução dos objectivos a alcançar. 

Genealogia e adopção


Mozelle Couto, "Mother´s Love"

Por razões que me parecem óbvias, discordo totalmente do facto de se registarem, numa árvore genealógica, filhos não biológicos.
É com bastante indignação que vejo acontecerem essas situações no Geneall Plus um site que, sendo pago, deveria oferecer alguma credibilidade em termos de escrutínio da autenticidade do que se vai postando.
Só num país de "faz de conta" é que, por exemplo, um professor universitário (com toda a carga intelectual, científica e, porventura, moral que lhe está associada) comete a ousadia de inscrever na sua pública árvore genealógica uma descendência que, sendo fruto do coração o não é da Biologia*.
Em meu entender, em nome da Ciência e da verdade, deveria ter-se abstido de a preencher, a fim de evitar embaraços e de desvirtuar a filosofia subjacente à Genealogia.
Por experiência própria, mãe de dois filhos (um adoptado e um biológico), por muito amor que sinta pela minha filha adoptada, seria incapaz de a incluir na minha árvore genealógica (herança do meu avô materno), não só por razões de honestidade intelectual mas, precisamente, pelo muito amor que lhe tenho e pelo respeito que por ela sinto. 
As idas ao médico e as embaraçosas lacunas de informação relacionadas com o historial clínico da sua família biológica, o seu nome original e o respeito que ela e a sua herança genética me merecem levaram-me a, com os poucos elementos que detinha, dar inicio a uma pesquisa (tão intensa quanto emocionante) e construção da sua própria árvore genealógica, com todo o amor e dedicação que por ela sinto.
Orgulho-me de ter chegado até à sexta geração (1800) por parte da sua avó materna!
Agora, que já tem quarenta anos, e depois de algumas fortes "tempestades", a cumplicidade, ternura e amor que caracterizam a nossa relação são a prova, provadíssima, de que a estratégia utilizada e o caminho percorrido foram os mais correctos, e não poderiam ter sido outros que não os que tiveram por base, não só uma constante transparência como uma forte e convicta persistência.
Entretanto, atendendo ao desenrolar dos acontecimentos e à forma, peculiar, como me veio parar aos braços, estou cada vez mais convencida de que esta foi uma missão que me foi atribuída por Forças que me ultrapassam, independentemente da designação que possam ter e da Fé e crenças de cada um.
Muito grata ao Universo por esta minha filha e pela confiança em mim depositada!...