Falar de direitos, ignorar deveres e contributo imigrantes

Fala-se tanto nos direitos dos trabalhadores e, curiosamente, ninguém aborda o tema dos respetivos deveres!!!
Apesar de já ter refletido sobre este assunto aqui, neste espaço, em Greves às Sextas, com o pacote laboral chumbado no Parlamento - depois de infindáveis meses de negociações com os diferentes parceiros sociais -, as discussões à volta das diferentes medidas nele incluídas e atendendo, a uma tão inusitada como acérrima defesa dos direitos dos trabalhadores (por parte de um improvável actor da "extrema-direita"), senti o apelo de voltar a falar sobre o tema.
Sobretudo depois da notícia abaixo publicada que, imagino, a poucos terá deixado surpreendidos.

"Em 2025, a produtividade por hora em Portugal caiu para 66,8% da média da União Europeia, interrompendo uma trajetória de convergência que durava há quatro anos."

Por aquilo que vou sentindo, vivendo e observando, no decurso do meu dia-a-dia, salvo raras e meritórias excepções - desde os serviços públicos, ao comércio, passando pela prestação de serviços - para além da gritante e notória falta de profissionalismo, facilmente nos apercebemos do desinteresse e total falta de empenho por parte de quem nos atende, o que me leva a acreditar que, muito provavelmente, para além de não gostarem do que fazem, estão completamente desligados do que deveria ser a cultura de trabalho da empresa ao serviço da qual estão vinculados.
Candidatam-se e ocupam postos de trabalho apenas e exclusivamente para garantirem, não só um rendimento ao fim do mês, como os direitos que estão associados ao universo laboral, nomeadamente os relacionados com a Segurança Social.
Na região onde vivo, o esquema é garantir contratos de trabalho pelo tempo necessário e suficiente para assegurar o direito ao subsídio de desemprego nos meses restantes, os de Inverno.
Assim se desvirtuou o conceito de "emprego", reduzido a uma dimensão individualista e meramente utilitária de quem a ele recorre e se passou a menosprezar a componente/dimensão produtividade no trabalho, implícito a qualquer actividade humana.
Enquanto houve mão de obra estrangeira, constituída por uma população de imigrantes - inicialmente vindos do Leste Europeu e, posteriormente, não só do Brasil, como de países do continente africano de Língua oficial Portuguesa e Hindustão - com uma outra cultura de trabalho, distribuída por diferentes áreas de actividade e cuja oferta garantia e assegurava os serviços básicos, pouca atenção era dada à prestação dos autóctones, pois havia quem trabalhasse e produzisse riqueza.

Existe um Portugal antes do Chega e outro, o actual, contaminado, pejado de preconceitos, racista, arrogante, bem mais pobre e intolerante em termos de acolhimento, depois de André Ventura.

Entretanto tudo mudou!
Muito e para pior.
Tanto em termos políticos, como económicos e socio-culturais.
Instilado o veneno sob a forma de ódio, encontrado um bode expiatório e propagada a ideia de que os imigrantes eram a causa de todos os males deste país - por, entre muitas outras razões, ocuparem postos de trabalho que deveriam ser ocupados por portugueses e estarem dependentes dos apoios da segurança social - desencadeou-se uma feroz guerra aos imigrantes promovida pelo Chega e acatada e abraçada pelo próprio governo.
Isto num país envelhecido, com uma elevada percentagem de população com baixa escolaridade, sem hábitos de leitura e "formados" nas redes sociais (os mais novos).
Quanto aos imigrantes, acossados, humilhados e maltratados*, começaram a procurar outros destinos, a começar pela sempre mais visionária, racional e pragmática vizinha Espanha...
Pobres, humildes, completamente desprotegidos, mas flexíveis, versáteis, despretensiosos, muito trabalhadores e sem exigências - os mesmos que, muito embora tendo consciência de estarem a ser explorados, não só pelas redes de tráfico humano para exploração laboral, como por empregadores e eventuais senhorios - se empenhavam, trabalhando muito para além do horário de trabalho regulamentado, a tudo se sujeitando, por deles dependerem bocas para alimentar nos países de onde eram e são oriundos.

* Assisti e continuo a assistir, ao ponto de me virem as lágrimas aos olhos.
E dói, dói mesmo muito!!!

Ilustr. Google e Instagram

Nassos Vakalis, Dinner for few

« "Jantar para Poucos" é uma representação alegórica da nossa sociedade.
Durante o jantar, "o sistema" alimenta os poucos que consomem todos os recursos, enquanto os restantes sobrevivem com as sobras.
Inevitavelmente, a luta pelo que resta leva a uma mudança catastrófica. Os frutos desta transição não se revela um sinal de esperança, mas antes a cópia fiel dos pais.»

« "Dinner For Few" is an allegorical depiction of our society.
During dinner, "the system" feeds the few who consume all the resources while the rest survive on scraps,
Inevitably, the struggle for what remains leads to catastrophic change.
The offspring of this transition turns out not to be a sign of hope, but the spitting image of the parents. »

Rapariga Ideal 1973

Com a idade que tenho, e cada vez mais consciente da efemeridade de tudo e de todos, a começar por mim própria, apeteceu-me partilhar este momento da minha vida pelo qual sinto alguma vaidade e um certo orgulho.
Aproveito, também, para dar a conhecer aos meus filhos os detalhes de que nunca lhes falei, uma vez que só agora refleti sobre o assunto, depois de ter encontrado material escrito da época.
Este concurso, promovido pela MPF (Mocidade Portuguesa Feminina), passou por várias etapas: 
visando avaliar, não só os conhecimentos, maturidade, características de personalidade e interesses de cada uma das candidatas, a nível nacional (Portugal continental, arquipélagos Açores e Madeira e, ao tempo, o Ultramar), todas aquelas que se dispuseram a concorrer, passaram por uma fase de pré-selecção, trabalhos reflexivos escritos, sobre vários temas (já me não recordo de quais), recebidos e enviados via CTT (estávamos numa era pré-internet, convém ter presente!); concluída esta, depois de uma triagem inicial, passámos a uma segunda fase, agora de âmbito regional envolvendo todos os distritos e respetivos concelhos.
Com o objectivo de seleccionar a representante de cada distrito ou região, foram feitas provas das diferentes aptidões (valorizadas, à época*) de cada uma das candidatas, a nível concelhio.
Segundo me recordo, estas contemplavam não só uma prova escrita de cultura geral, como provas antecipadamente anunciadas, de forma a que cada uma de nós se preparasse e, chegado o dia marcado, fosse munida com tudo aquilo de que precisaria para fazer as suas provas, de acordo com o que tinha programado.
Abrangiam uma prova de culinária - preparação, apresentação e degustação da receita escolhida, por parte dos elementos do júri de selecção - incluindo a preparação e decoração de uma mesa para convidados.
Para além destas, e que me recorde, havia também uma prova de costura.
Quanto a mim, nestas provas práticas, preparei e apresentei uma tarte de requeijão que fez as delícias da Dra Dionísia Camões (será que também ela se deixou "conquistar pelo estômago"?), preparei uma mesa cheia de detalhes, que incluíram serviço de sobremesa (levado de casa) e flores, e cosi um botão.
Para não me alongar muito mais, seleccionadas as candidatas distritais, era chegado o momento de se reunirem, em Lisboa, com o objectivo de proceder à selecção final, a de quem seria a Rapariga Ideal 1973.

Narrada e exposta a minha pequena vaidade, impõe-se a reflexão sobre os efeitos que estas iniciativas tiveram sobre cada uma de nós, em termos ideológicos e de concepção de vida e sociedade.
Será que saíram daqui umas fanáticas, retrógradas, incorrigíveis e intolerantes "fascistas"?...
Claro que não!
Em 1973 já se não pensava, vivia e defendia o que André Ventura pensa, defende e preconiza em termos de modelo de sociedade!!!
Desconheço o que vai no seu imaginário mas não corresponde, de todo, em termos de postura e valores estruturais ao que nós, os que estivemos integrados, vivemos.
Aliás, penso ser essa uma das razões pelas quais sinto, não só uma profunda e visceral antipatia como uma enorme aversão por ele, pelas mensagens explícitas e subliminares que veícula, pelo constante veneno que destila, pelo seu oportunismo, pela sua falta de carácter, pelas suas teatrais intervenções e, finalmente, por cometer o sacrilégio de "invocar o nome de Deus em vão", em proveito próprio e do partido que representa.

Mocidade Portuguesa
Pretendia abranger toda a juventude, escolar ou não, e destinava-se a «estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina e no culto do dever militar.»

Entretanto, depois disso, "muita água correu debaixo da ponte"
Tendo perdido o contacto de todas as outras apercebi-me, há uns anos atrás, de que uma delas integrava e continua a integrar a lista de militantes do PS.
Quanto a mim, reconheço que tive uma formação não só marxista como marxizante, no curso que escolhi.
O expoente máximo, entre vários, foi a cadeira de Sistemas Económicos (Economia Política) ministrada, ao tempo, pelo Prof. Doutor Avelãs Nunes e a sua obrigatória e inseparável sebenta intitulada "Sistemas Económicos".
Era uma cartilha!
Na primeira frequência tive 9 e na segunda, depois de compreendido o esquema, tive 15!!!
Senti-me obrigada a fazer aquilo que sempre detestei fazer: decorar!!!
Pertencendo à área das Ciências Sociais (que sempre adorei!), tive cadeiras interessantíssimas que me abriram os olhos e os horizontes, todas ministradas por professores formados no estrangeiro, predominantemente França e Bélgica (fugidos à obrigação de cumprirem o serviço militar).
Não sou nem me tornei marxista, mas devo muito à formação que me foi dada, em termos de métodos de análise, investigação e compreensão dos diferentes fenómenos socio-culturais.
Foi uma mais-valia que senti ao longo dos anos e da vida, tanto em termos de vida em sociedade como, mesmo, familiares.
Agora, bem mais velha, confesso ter perdido não só a paciência como a condescendência e corro o risco de, nos tempos que correm e da forma como estão a decorrer, me tornar completamente anti-social.

* Em meu entender, sempre que se aborda um acontecimento ou facto histórico, é fundamental que se tenha a preocupação e a honestidade de os contextualizar (tempo, espaço e época) sob pena de desvirtuar a informação. 

Curiosidade:
arquivos.rtp.pt/conteudos/mocidade-portuguesa-feminina-apresenta-o-concurso-rapariga-ideal/
Mocidade Portuguesa Feminina apresenta o concurso Rapariga Ideal
"Os conteúdos disponíveis estão protegidos por direitos de propriedade industrial e direitos de autor. É expressamente proibida a sua exploração, reprodução, distribuição, transformação, exibição pública, comunicação pública e quaisquer outras formas de exploração sem a autorização prévia da RTP." 
arquivos.rtp.pt
Rapariga Ideal 1973