Duc in Altum
Em busca do equilíbrio entre a constância e "certezas" do Passado e a fluidez e múltiplas contingências do Presente
Mário Centeno e a Imigração, o olhar de um académico cosmopolita
Em resposta às declarações do Ministro Leitão Amaro, que considera serem de um cariz "bastante populista" afirma que, no que diz respeito à evolução do mercado de trabalho constituído por mão de obra estrangeira, "a porta nunca está escancarada porque essas pessoas estão a trabalhar."
Falar de direitos, ignorar deveres e contributo imigrantes
Apesar de já ter refletido sobre este assunto aqui, neste espaço, em Greves às Sextas, com o pacote laboral chumbado no Parlamento - depois de infindáveis meses de negociações com os diferentes parceiros sociais -, as discussões à volta das diferentes medidas nele incluídas e atendendo, a uma tão inusitada como acérrima defesa dos direitos dos trabalhadores (por parte de um improvável actor da "extrema-direita"), senti o apelo de voltar a falar sobre o tema.
Sobretudo depois da notícia abaixo publicada que, imagino, a poucos terá deixado surpreendidos.
Candidatam-se e ocupam postos de trabalho apenas e exclusivamente para garantirem, não só um rendimento ao fim do mês, como os direitos que estão associados ao universo laboral, nomeadamente os relacionados com a Segurança Social.
Na região onde vivo, o esquema é garantir contratos de trabalho pelo tempo necessário e suficiente para assegurar o direito ao subsídio de desemprego nos meses restantes, os de Inverno.
Assim se desvirtuou o conceito de "emprego", reduzido a uma dimensão individualista e meramente utilitária de quem a ele recorre e se passou a menosprezar a componente/dimensão produtividade no trabalho, implícito a qualquer actividade humana.
Enquanto houve mão de obra estrangeira, constituída por uma população de imigrantes - inicialmente vindos do Leste Europeu e, posteriormente, não só do Brasil, como de países do continente africano de Língua oficial Portuguesa e Hindustão - com uma outra cultura de trabalho, distribuída por diferentes áreas de actividade e cuja oferta garantia e assegurava os serviços básicos, pouca atenção era dada à prestação dos autóctones, pois havia quem trabalhasse e produzisse riqueza.
Instilado o veneno sob a forma de ódio, encontrado um bode expiatório e propagada a ideia de que os imigrantes eram a causa de todos os males deste país - por, entre muitas outras razões, ocuparem postos de trabalho que deveriam ser ocupados por portugueses e estarem dependentes dos apoios da segurança social - desencadeou-se uma feroz guerra aos imigrantes promovida pelo Chega e acatada e abraçada pelo próprio governo.
Quanto aos imigrantes, acossados, humilhados e maltratados*, começaram a procurar outros destinos, a começar pela sempre mais visionária, racional e pragmática vizinha Espanha...
* Assisti e continuo a assistir, ao ponto de me virem as lágrimas aos olhos.
E dói, dói mesmo muito!!!
Nassos Vakalis, Dinner for few
« "Jantar para Poucos" é uma representação alegórica da nossa sociedade.
Durante o jantar, "o sistema" alimenta os poucos que consomem todos os recursos, enquanto os restantes sobrevivem com as sobras.
Inevitavelmente, a luta pelo que resta leva a uma mudança catastrófica. Os frutos desta transição não se revela um sinal de esperança, mas antes a cópia fiel dos pais.»
Inevitably, the struggle for what remains leads to catastrophic change.
The offspring of this transition turns out not to be a sign of hope, but the spitting image of the parents. »

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