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O Machado roubado

 «Lao-Tseu
conta que, um dia, um camponês perdeu o seu machado.
Procurou-o por todo o lado, em casa, mas em vão. 
Ao aperceber-se, entretanto, que um dos seus vizinhos passava desviando o olhar suspeitou, de imediato, que pudesse ter sido ele a roubar-lho.
O homem, de facto, tinha um comportamento suspeito e que levava a crer que tivesse sido o ladrão do machado. O seu rosto, o seu ar, a sua atitude, os seus gestos, as palavras que pronunciava, tudo nele indicava, sem lugar para dúvidas, que fosse ele o ladrão.
Instalada a dúvida, o camponês estava decidido a denunciá-lo, a acusá-lo publicamente e a leva-lo perante um juiz quando, de repente, reencontrou o seu machado, caído no meio dos arbustos, não longe dali.
Quando voltou a ver o seu vizinho, este não apresentava o menor indicio que sugerisse poder ser o ladrão do desaparecido machado.»

Contes philosophiques
Trad. e Adaptação
Maria M. Abreu

... O perigo das presunções baseadas em meros equívocos, sem o suporte de provas concretas.

Salvar é a minha natureza

« Dois monges estavam a lavar as suas tigelas à beira de um rio quando repararam que um escorpião se estava a afogar.
Um dos monges, imediatamente, pegou nele e colocou-o na margem.
Durante este processo foi picado.
Continuou a lavar a sua tigela e, de novo, o escorpião caíu ao rio.
O monge voltou a salvar o escorpião e foi, novamente, picado.
O outro monge perguntou-lhe:
- Amigo, porque continuas a salvar o escorpião quando sabes que a sua natureza é picar?
- Porque - respondeu o monge - salvar, é a minha natureza.»

Trad. e adaptação: Maria M. Abreu 

A Taça de Chá

« Nan-in, um mestre japonês do séc.XIX recebeu, um dia, a visita de um professor universitário americano interessado em obter mais informações sobre a filosofia Zen.
Enquanto Nan-In preparava silenciosamente o chá o professor entretinha-se a dissertar sobre os seus próprios pontos de vista filosóficos. 
Assim que o chá ficou pronto, Nan-in começou a verter, muito suavemente, a bebida a ferver na taça do seu visitante. 
O professor não parava de falar. E Nan-In continuou a verter o chá até que a taça transbordou. 
Alarmado ao ver como a bebida se espalhava pela mesa, arruinando a cerimónia do chá, o professor exclamou:
- Mas, a taça está cheia!… Não conterá sequer uma única gota a mais!
Tranquilamente Nan-in respondeu:
- O professor é como esta taça, já está cheio das suas próprias opiniões e especulações.
Como poderei falar-lhe do Zen se ainda não começou por se esvaziar a si próprio? »

Philosophie et Spiritualité
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu

Obcecado

« Dois monges em viagem chegaram à beira de um rio, onde encontraram uma mulher jovem.
Receosa da corrente, ela pediu-lhes se a podiam transportar para o outro lado.
Um dos monges hesitou, mas o outro rapidamente lhe pegou e a colocou em cima dos seus ombros, atravessou o rio e colocou-a na outra margem. Ela agradeceu-lhe e partiu.
Continuando a sua viagem, o monge hesitante estava pensativo e preocupado. Incapaz de prolongar o seu silêncio, disse:
- Irmão, o nosso treino espiritual ensina-nos a evitar qualquer contacto com as mulheres, mas tu pegaste nesta e transportaste-a aos teus ombros!
-  Irmão - respondeu o outro monge - eu levei-a para a outra margem, de facto, mas tu continuas a carregá-la contigo...»

Ilustr. "Chinese wise man" by Chris Motta
Tradução e adaptação: Maria M. Abreu