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Coimbra, polo intelectual e cultural (anos 70 e 80 séc. XX)

 Há algumas semanas atrás (31.08.2026) e na sequência de uma entrevista do Público ao Prof. Doutor António Avelãs Nunes (faculdade de Direito da UC e ISSS Coimbra), declaradamente um marxista ortodoxo, autor do livro/cartilha "Sistemas Económicos" e de quem também fui aluna, houve uma explosão de comentários que expressavam e contemplavam todo o espectro político Português.
Desde antigos alunos, a conhecidos e amigos e também de muita gente que, pura e simplesmente, ignorava a sua existência, até então.
De entre estes últimos, houve um comentário que prendeu a minha atenção, não só pela leviandade da afirmação como, e sobretudo, pelo total desconhecimento do que era Coimbra nos anos 70 e 80 do século passado:

"Que Coimbra era o “antro” fascista já todos sabíamos, agora marxista, essa é nova. Portanto, Coimbra é um “antro” de extremistas. Longe dessa gente…" 

Obviamente não consegui ficar calada pois que cresci, vivi e estudei em Coimbra e a realidade vivida era outra bem diferente, mais complexa, muito estimulante e altamente desafiadora do status quo vigente, ao tempo.
Fulcral para a criação deste ambiente foi a introdução, desenvolvimento, e expansão das Ciências Sociais no ensino superior português, no pós-25 de Abril de 1974.

E não, a Coimbra do meu tempo, de antro (ver significado da palavra) não tinha nada.
Era exactamente o oposto.
Uma cidade universitária onde fervilhavam ideias e teorias de diferentes quadrantes que eram debatidas até à exaustão pelas noites adentro e em qualquer lado, a começar pelas mesas dos cafés, tendo a Praça da República como ícone.
Havia também a Clepsidra (ao fundo das escadas monumentais), café de anos 70 a 80, um espaço de acesas conversas ligado à esquerda académica.
Os cinemas (com bilhetes para estudantes a 5 escudos) e os filmes aí passados eram, eles próprios, objecto de debates e considerações.
Cheguei a ver 3 filmes no mesmo dia, numa corrida imparável entre o Teatro Gil Vicente e o Cinema Avenida.
Por lá passaram os filmes dirigidos pelo sueco Ingmar Bergman ("Lágrimas e Suspiros", "Morangos Silvestres", "Fanny e Alexandre" e o "Sétimo Selo") e muitos outros cujas obras eram susceptíveis de introduzir polémicas e de gerar longas e acesas discussões.
Foi no Teatro Gil Vicente que vimos o filme "Os Deuses Devem Estar Loucos", por recomendação do nosso, ao tempo, professor de Sociologia.
Eram debatidas ideias e posições de forma inteligente e sempre, mas mesmo sempre, de forma respeitosa e respeitadora das diferentes convicções de cada um.

Estimular é preciso:

Como em quase tudo na vida, os estímulos são um factor muito importante em qualquer processo de desenvolvimento que se pretenda exercitar, não só em termos físicos/motores, como intelectuais.
No que me diz respeito, foi através do confronto de ideias, de intermináveis discussões e de muitas horas roubadas ao sono que construí a minha identidade e uma muito pouco confortável forma de ver e estar no mundo: sem certezas, com muitas dúvidas e algumas convicções.

Ilustr. Google

Anos 60 séc. XX, Woodstock Reunion Concert


Muito interessante, esta montagem!
Quanto ao tempo, esse voou, num ápice e de forma sorrateira, alterando corpos, aparências e, provavelmente, um considerável número de almas.
Mas sinto em mim, que tão distante estive deste evento, um cheiro, um sabor, uma luzinha, uma certa forma de estar, ser e viver que só pode advir da influência que todos estes movimentos da designada Contracultura tiveram sobre muitos de nós, os da prodigiosa  geração de 1960.
Poderá parecer pretencioso, mas é uma pretensão com fundamento e provas dadas pois, caso contrário, não estaríamos aqui, hoje, a comunicar via internet.