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Portugal, a opacidade que a ninguém incomoda e de que ninguém fala

 
 Depois de ter assistido, em parte, ao último debate da Nação (esta quinta-feira que passou) e de ter ouvido o Sr. Primeiro-Ministro responder, a dada altura, que quem acha que está tudo mal em Portugal não pode governar, pois não acredita na mudança  (excelente argumento, que caiu em mim como uma luva!), senti necessidade de abordar um tema que há muito me incomoda por não responder à minha demanda, de há um ano a esta parte.
 O da opacidade do Estado (site do governo), no que diz respeito a informação relacionada com as empresas que, independentemente da sua dimensão, e em democracia, deveriam constar de um registo que, sendo oficial, fosse, também, público. *(vide informação abaixo sobre a Transparência, responsabilidade e prestação de contas no Reino Unido)
 De tão básico, mesmo pueril, se não for com a intenção de ocultar informação (razão para a qual me sinto inclinada a acreditar!)  o Gov.pt é uma verdadeira decepção.
 Muito estranho também é o facto de, nem os diferentes partidos políticos, nem os media, abordarem este tema que tanto e a tantos ajudaria, a começar pelo próprio Estado português.
 Para além de contribuir para o combate e prevenção da corrupção em diferentes áreas, há algumas, mais sensíveis como a da Saúde, por exemplo, cuja transparência empresarial poderia alertar o Estado para os cuidados a ter com a atribuição de subsídios, subvenções e outros e na realização, potencialmente mais criteriosa, de protocolos clínicos e assistenciais.
 Não há necessidade de fomentar e de praticar  actos de denúncia; é um recurso tão vil como condenável, sobretudo quando é praticado a coberto do anonimato.
 Basta a Transparência!!!
 Dói-me quando sinto e sei que os impostos que pago (por vezes a tanto custo!) são malbaratados, indevidamente utilizados e aproveitados para o enriquecimento de alguns, aqueles, os "espertalhões" cujos negócios, de fraquíssima qualidade, vão prosperando à custa da ineficácia do Estado, em termos de inspeção e supervisão.
 Nós, portugueses contribuintes, precisamos de transparência (de facto!), de responsabilidade/responsabilização, de maturidade na governação e de prestação de contas, doa ela a quem doer, e é ao Estado que compete a concretização destes objectivos.

* Reino Unido: Transparência, responsabilidade e prestação de contas

GOV.UK
Find and update company information
Uma secção/página do site com informações genéricas:
1.Overview - visão geral
Contas
Código ou códigos da natureza do negócio/s
Data de incorporação
Data última declaração e da próxima;
2.Filing history - Uma outra com o seu arquivo histórico
3.People - Uma outra com a identificação e morada do proprietário e respectivos gestores;
4. Snapshot - um resumo da situação e histórico da empresa

Falar de direitos, ignorar deveres e contributo imigrantes


 Fala-se tanto nos direitos dos trabalhadores e, curiosamente, ninguém aborda o tema dos respetivos deveres!!!
Apesar de já ter refletido sobre este assunto aqui, neste espaço, em Greves às Sextas, com o pacote laboral chumbado no Parlamento - depois de infindáveis meses de negociações com os diferentes parceiros sociais -, as discussões à volta das diferentes medidas nele incluídas e atendendo, a uma tão inusitada como acérrima defesa dos direitos dos trabalhadores (por parte de um improvável actor da "extrema-direita"), senti o apelo de voltar a falar sobre o tema.
 Sobretudo depois da notícia abaixo publicada que, imagino, a poucos terá deixado surpreendidos.

"Em 2025, a produtividade por hora em Portugal caiu para 66,8% da média da União Europeia, interrompendo uma trajetória de convergência que durava há quatro anos."

 Por aquilo que vou sentindo, vivendo e observando, no decurso do meu dia-a-dia, salvo raras e meritórias excepções - desde os serviços públicos, ao comércio, passando pela prestação de serviços - para além da gritante e notória falta de profissionalismo, facilmente nos apercebemos do desinteresse e total falta de empenho por parte de quem nos atende, o que me leva a acreditar que, muito provavelmente, para além de não gostarem do que fazem, estão completamente desligados do que deveria ser a cultura de trabalho da empresa ao serviço da qual estão vinculados.

Candidatam-se e ocupam postos de trabalho apenas e exclusivamente para garantirem, não só um rendimento ao fim do mês, como os direitos que estão associados ao universo laboral, nomeadamente os relacionados com a Saúde e Segurança Social.

 Na região onde vivo, o esquema é garantir contratos de trabalho pelo tempo necessário e suficiente para assegurar o direito ao subsídio de desemprego nos meses restantes, os de Inverno.
 Assim se desvirtuou o conceito de "emprego", reduzido a uma dimensão individualista e meramente utilitária de quem a ele recorre e se passou a menosprezar a componente/dimensão produtividade no trabalho, implícito a qualquer actividade humana.

 Enquanto houve mão de obra estrangeira, constituída por uma população de imigrantes - inicialmente vindos do Leste Europeu e, posteriormente, não só do Brasil, como de países do continente africano de Língua oficial Portuguesa e Hindustão - com uma outra cultura de trabalho, distribuída por diferentes áreas de actividade e cuja oferta garantia e assegurava os serviços básicos, pouca atenção era dada à prestação dos autóctones, pois havia quem trabalhasse e produzisse riqueza.

 Existe um Portugal antes do Chega e outro, o actual, contaminado, pejado de preconceitos, racista, arrogante, bem mais pobre e intolerante em termos de acolhimento, depois de André Ventura.

 Entretanto tudo mudou!
Muito e para pior.
Tanto em termos políticos, como económicos e socio-culturais.

Instilado o veneno sob a forma de ódio, encontrado um bode expiatório e propagada a ideia de que os imigrantes eram a causa de todos os males deste país - por, entre muitas outras razões, ocuparem postos de trabalho que deveriam ser ocupados por portugueses e estarem dependentes dos apoios da segurança social - desencadeou-se uma feroz guerra aos imigrantes promovida pelo Chega e acatada e abraçada pelo próprio governo.

 Isto num país envelhecido, com uma elevada percentagem de população com baixa escolaridade, sem hábitos de leitura e "formados" nas redes sociais (os mais novos).

 Quanto aos imigrantes, acossados, humilhados e maltratados*, começaram a procurar outros destinos, a começar pela nossa vizinha Espanha, sempre mais visionária, racional e pragmática...

 Pobres, humildes, completamente desprotegidos, mas flexíveis, versáteis, despretensiosos, muito trabalhadores e sem exigências, os mesmos que - muito embora tendo consciência de estarem a ser explorados, não só pelas redes de tráfico humano (para exploração laboral), como por empregadores e eventuais senhorios - se empenhavam, trabalhando muito para além do horário de trabalho regulamentado, a tudo se sujeitando, por deles dependerem bocas para alimentar nos países de onde eram e são oriundos.

* Tenho assistido e  continuo a assistir incrédula, com uma enorme revolta interior, ao ponto de me virem as lágrimas aos olhos.
E dói, dói mesmo muito!!!

Ilustr. Google e Instagram

Indigência política


 Por mais pragmático que se seja, perante esta pequeníssima amostra de indigência política, é difícil aceitar que o actual governo, oriundo de um partido de matriz social-democrata, permita ser manipulado por alguém tão desestabilizador e desprezível - falam os comportamentos presentes e passados, os discursos subliminares de apelo ao ódio e à violência, os gritos, as atitudes, a falta de educação e de sentido de Estado, entre outros! -  como André Ventura, a personificação do Chega.
 Espero que a AD e o Sr. Primeiro-Ministro, Dr. Luís Montenegro, respeitem e tenham em consideração a vontade e a mensagem de todos aqueles que, tendo-se pronunciado a seu favor, contribuíram para a sua eleição.
 Espero que não desperdicem o capital de confiança de que são detentores porque, se o fizerem, penso que o PSD português deixará de ter razão de existir.
 Sei que tem sido difícil, desgastante, mesmo espinhosa, a tarefa de estarem dependentes da cooperação (ou falta da mesma) dos restantes partidos no Parlamento para obter a aprovação do seu programa, uma vez que não têm uma maioria parlamentar.
 Quanto ao PS, partido do "arco da governação", tem mantido uma postura lamentável, de constante boicote e total falta bom senso, visão estratégica e compreensão do que tem estado e está em jogo.
 Falta, infelizmente, à sua actual direcção a inteligência, a experiência, a sagacidade e essa ímpar, nacional e internacionalmente reconhecida, capacidade de negociação do Dr. António Costa!!!
Mas, apesar de todas estas dificuldades, nem tudo vale.
 Ou fazem a diferença, enfrentando a "besta" e resistindo, não só à irresponsabilidade (não é governo!), como ao populismo discriminatório e vacuidade das propostas e contra-propostas apresentadas  - de cariz redutor, provinciano e meramente doméstico - ou esfumar-se-ão na espuma dos dias, das cedências que forem fazendo e nas respetivas  consequências.
 Que haja bom senso no Parlamento e, se possível, alguma réstea de carácter!
Ilustr. Google

Portugal, um País condenado à Emigração

Fotografia: Hong Kong
Luís L.A.

Portugal foi, é e, "pelo andar da carruagem", irá sempre continuar a ser um país de emigrantes.

Só que agora o problema é mais sério pois, a acrescentar a todos aqueles que partem sem grandes qualificações, à procura de uma vida melhor, com salários mais elevados, em países que reconheçam e valorizem o trabalho, enquanto força motriz de qualquer sociedade vão, também, muitos jovens com qualificações acima da média, carregados de sonhos e cheios de esperança, em busca da apreciação e valorização a que entendem ter direito e que lhes é garantida a partir do momento em que assinam os seus primeiros contratos.

Depois de anos, passados e esforçados a investirem, material e intelectualmente, na sua formação e qualificações sociais, humanas e académicas esperam, apenas, que lhes sejam dadas oportunidades, uma avaliação rigorosa das suas competências, a liberdade possível de as explorar e desenvolver, em benefício de todos, e o reconhecimento e apreciação do seu esforço, do seu eventual potencial produtivo.

Desdobram-se na apresentação de candidaturas, sujeitam-se a todo o tipo de filtros exigidos pelas empresas que lhes vão abrindo as portas, a infindáveis entrevistas (3 e 4 no processo de selecção de cada uma das empresas), ao dissabor e à frustração de serem preteridos quando tal acontece enfim, a uma via sacra de sentimentos e emoções que só quem passa pelo processo compreenderá.

Heróis Portugueses do séc. XXI, entre muitos outros, estes são os jovens de que Portugal - o seu país de origem - abre mãos, a quem ignora, deixando-os partir (de forma não só leviana como displicente) para países, organizações e empresas que, de braços abertos os acolhem e mesmo, mimam, porque neles reconhecem o potencial de inovação e enriquecimento alvo da sua demanda, razão de ser da sua existência.

Enquanto aqueles que nos governam (será mesmo?!...) e as respetivas estruturas partidárias não compreenderem, que não existem apoios financeiros nem infraestruturas urbanas e regionais que se auto-sustentem e que, para que estas funcionem em plenitude, é necessário alterar a massa crítica vigente.
Um problema estrutural de mentalidade, de cariz terceiro-mundista, que se vem reproduzindo de geração em geração, ao longo de décadas (senão mesmo de séculos!) e tem dominado a nossa forma de estar, agir, trabalhar, pensar e evoluir.
Enquanto se mantiver este paradigma, permeável à troca de favores e de outras formas desviantes de contratação, preterindo e apostando na qualidade e no mérito próprio, nunca será possível que Portugal atinja os níveis de desenvolvimento social e económico a que todos nós, de forma legítima e mais ou menos consciente, aspiramos.
(Outubro 20.2021)

"Ano da graça" de 2023:
Agora virou discurso oficial!
Em 2021 ninguém "sentia" o problema ...
Entretanto, ninguém vai ao cerne da questão.
Ninguém aborda o problema dos "compadrios", das "cunhas", dos processos e critérios de selecção, da ausência de rigor e dos descurados níveis de exigência tão enraizados nesta nossa sociedade Portuguesa!!!